
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
terça-feira, 6 de outubro de 2009
MEB: Música Engajada Brasileira. Tempo de pensar
No auge dos movimentos estudantis e de extrema esquerda registrados nos anos 60 e 70, o Brasil, assim como boa parte dos países capitalistas ao redor do planeta, vivia um período de grande efervescência cultural e política, em sua maioria protagonizado por jovens que radicalizavam as estruturas do sistema conservador que dominava o mundo, e que há anos estava no poder.Naquele momento, é verdade, as revoltas e barricadas, se comparadas ao tamanho e barulho que provocaram, pouco surtiram efeito de imediato. Anos mais tarde, porém, ainda como resultado daquelas conturbadas manifestações, diversas conquistas foram obtidas pelas minorias, muitas delas desfrutadas ainda hoje pelas gerações que se seguiram.
Naquela época as artes, muito mais do que simplesmente entreter, eram responsáveis por formar opiniões, ideais políticos e até mesmo filosofias existenciais. A Tropicália e o Cinema Novo, no Brasil, por exemplo, foram assim, contraculturalmente apresentando um novo caminho a seguir.
Hoje, mais de 40 anos depois, o sangue escorrido e o sua derramado por milhares de jovens apresentam, no máximo, um ínfimo legado. No Brasil, por exemplo, especificamente no campo das artes, o que vemos é a sua banalização, ou melhor, a sua mal ou sub utilização.
A subversão e o engajamento que antes acompanhavam as produções artísticas se perderam no espaço, e atualmente se restringem a uma ou outra manifestação. Peguemos a música brasileira como exemplo, que, ao meu ver, perde força e significado ao ser concebida apenas como puro entretenimento. A arte, especialmente em nações que enfrentam fortes desigualdades sociais, raciais e econômicas como o Brasil, deve sim ser um instrumento de contestação, de alerta.
A arte engajada, se bem utilizada, pode ser o impulso que a conformista classe média e a desiludida camada pobre da sociedade brasileira precisam para rever seus conceitos e sacudir seus interesses monogâmicos de conforto individual.
Dentro deste contexto, a única manifestação que hoje procura abrir os olhos da população atende pelo nome de Rap. O movimento é o único dentro da música nacional que procura apresentar a população a verdadeira face do Brasil, suas desigualdades, preconceitos e fragilidades institucionais.
Talvez seja por isso, que o ritmo consegue, como nem um outro, despertar nos nossos jovens o engajamento social, político e cultural que a escola, os meios de comunicação e a própria família, já dominados pela indústria capitalista, não são capazes de fazer.
Não por acaso, Caetano Veloso, um dos ícones do Tropicalismo, defende e admira o ritmo. Muito provavelmente em razão do forte apelo contraventor e de mudança que o Rap transmite.
Será que mora aí a repudia que o gênero sofre por parte das autoridades e de grande parcela da população? Muito provavelmente sim, já que movimentar multidões e formar opiniões contrárias ao que stabilishment e a preguiçosa classe média pregam, geralmente afrontam os interesses de quem lucra com esta imobilidade política e cultural em que vivemos.
O Rap, norte-americano de origem, mas brasileiro de coração, é hoje a mais pura e verdadeira música feita em solos tupiniquins. E ainda por cima nos faz pensar, para o desespero das classes dominantes, que seguem nos abastecendo com canções de amor e dizendo que o Brasil é um mar de flores.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Vaga Lembrança

Envoltos em bolhas invisíveis de solidão, munidos de ipod´s, notebooks, celulares e GPS´s, vivemos em uma sociedade que se vangloria da modernidade da qual desfruta. Nadando de braçada nos benefícios que a tecnologia produz, se quer nos damos conta que cada vez mais somos indivíduos e menos coletivo.
Essa reclusão afetiva, somada ao desinteresse cada vez maior por questões antigas e históricas da formação das sociedades vem nos distanciando da realidade física e histórica das coisas. Com os olhos fixos no amanhã, não nos damos conta o quão submissa e apática tornou-se nossa relação com o passado. E pior, essa amnésia influencia diretamente no entendimento, ou melhor, no não entendimento, dos fatos e acontecimentos que se dão no presente.
É como se a tão almejada facilidade do mundo moderno passasse uma borracha nas lutas e batalhas travadas por nossos antepassados que, com sangue, suor e lágrimas, tornaram possíveis à realidade da qual gozamos hoje.
Para as novas gerações, ou para grande parte dela, tudo é efêmero. Tudo nasceu pronto, esculpido e acabado. No Brasil, muitos pensam assim.
O que dirá então das minorias, como os negros, por exemplo, e da lutas destes pela igualdade de direitos travada desde o momento que o primeiro escravo oriundo do continente africano aqui pisou?
Reduzida a ínfimos acontecimentos, que nem de longe retratam, ou lembram, a trajetória de batalhas em terras brasileiras travadas pelos negros escravizados, a história do nosso povo é feita de vagos relatos e lembranças.
Porém, é importante que coloquemos os pontos nos “is” e, ao contrário do desejo de muitos (inclusive do próprio tempo), salientemos que em nenhum momento da era da escravidão no Brasil, o negro foi submisso a este regime, pelo contrário, jamais parou de combater as injustiças dos senhores de engenho e da monarquia.
Um episódio de extrema importância neste contexto, mas que sequer é mencionado nos livros que dizem contar a história do Brasil, atende pelo nome de “Revolta dos Alfaiates”, movimento abolicionista e de independência que aconteceu em agosto de 1798, na Bahia.
A insurreição, que teve início com a divulgação de panfletos feitos por Luis Gonzaga das Virgens (soldado do ligado à ala mais radical e popular do movimento, formada por negros livres), foi um marco na luta pela liberdade dos negros escravizados em solos tupiniquins.
A importância desta passagem histórica equivale, e por vezes supera, a Inconfidência Mineira. Isso por que a articulação na Bahia era mais arrojada, pois propunha a libertação das pessoas escravizadas – coisa que Tiradentes e companhia limitada não pensavam.
Em um dos panfletos distribuídos na “Revolta dos Alfaiates” (uma vez que os líderes do movimento exerciam este ofício), mas denominada “Conjuração Baiana”, constava a seguinte frase: "Povo que viveis flagelados com o pleno poder do indigno coroado, esse mesmo rei que vós criastes; esse mesmo rei tirano é o que se firma no trono para vos vexar, para vos roubar e para vos maltratar."
A revolta foi inspirada na Revolução Francesa, 1792 – nos ideais de Fraternidade, Liberdade e Igualdade.
No ato da detenção dos insurgentes foi feita também uma busca e apreensão de material, onde foram encontrados livros de filósofos iluministas e boletins franceses favoráveis à revolução francesa.
Por ordem da rainha portuguesa Dona Maria I - 59 pessoas foram investigadas e até torturadas, sendo 34 processadas e apenas 4 negros sentenciados a morte pela forca.
No dia 8 de novembro de 1799, os quatro condenados foram levados num cortejo triste pelas vias publicas de Salvador, sendo assistidos pela população local, formada em 80% por negros, que fazia silenciosa reverencia aos seus heróis.
Os quatro acusados foram enforcados na Praça da Piedade e tiveram as suas cabeças cortadas e demais partes do corpo espalhadas pela cidade, penduradas em varas de pau.
Se a pátria, nem os livros, os ignoram, assim como o fizeram com a revolta em si, cabe a nós, cidadãos brasileiros, reconhecê-los como mártires da luta pela igualdade, ainda tão almejada pelos negros (e outras minorias) mais de dois séculos depois.
Submissão, jamais!
+ INFO:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Conjura%C3%A7%C3%A3o_baiana
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
CARTA ABERTA: PARA VOZES QUE NÃO CESSAM
Presidente da Unas (União de Núcleos Associação e Sociedades dos Moradores de Heliópolis e São João Clímaco)
Violência em Heliópolis
A favela de Heliópolis não é só o que estamos vendo hoje nos meios de comunicação. A comunidade tem uma história de luta na cidade de São Paulo, com uma população de 125 mil habitantes. Destes, 53% é constituída de crianças, jovens e adolescentes. Essa favela nasceu na década de 70, quando aqui chegaram as primeiras 100 famílias vindas da antiga favela Vergueirinho, na Vila Prudente, para possibilitar a construção do viaduto da Ford. A Prefeitura, na época do então Prefeito Reynaldo de Barros (e do Governador Paulo Maluf), prometeu as famílias colocá-las em um alojamento provisório por 30 dias. Esse alojamento durou mais de 30 anos e somente agora foi removido com as obras oriundas do PAC/Heliópolis, onde começam a ser investidos R$196 milhões, com a participação dos Governos Federal, Estadual e Municipal.
Com a luta dos moradores, temos conquistado projetos sociais que têm mudado a realidade de uma parcela muito pequena dos jovens de nossa comunidade, além da implantação de programas sociais como: creches, e escola técnica (com 520 alunos, em sua maioria da comunidade, que terão acesso ao curso técnico profissionalizante do gabarito do Centro Paulo Souza).
A Escola Campos Sales e outras do entorno têm-se esforçado para a melhoria da qualidade do ensino. Há dois anos, tem implantado o Projeto Escola sem Muros, onde alunos maiores contribuem com o ensino de outros. Pelo 11º ano consecutivo, foi realizada a Caminhada pela Paz.
Vem-se erguendo na comunidade o Pólo Educacional Heliópolis, com a participação do Secretário Municipal da Educação, Alexandre Schneider, e a contribuição solidária do arquiteto Ruy Ohtake, entre outras personalidades da sociedade civil organizada. Está sendo implantando um projeto focado na melhoria do ensino no âmbito das escolas municipais. Assim, nossa luta é transformar Heliópolis em um Bairro Educador, com os princípios: da Solidariedade, Autonomia, Responsabilidade, tendo a escola como centro de lideranças conscientes de que tudo passa pela educação.
Temos articulado junto ao poder público novos projetos e ações visando à melhoria da qualidade de vida para os moradores. Nesse sentido, estivemos em Brasília fazendo gestões junto aos Ministérios: das Cidades, do Trabalho, Cultura, das Comunicações, da Saúde, entre outros, resultando em algumas iniciativas de projetos, embora tímidas, pelo tamanho da população local e sua dimensão no contexto do Estado de São Paulo.
No campo do Poder Executivo, recebemos o Prefeito Gilberto Kassab, tendo participado, em 4 de junho de 2009, da XI Caminhada pela Paz. O Governador José Serra, que anunciou a construção da Escola Técnica, entre outras medidas, e o Presidente Lula, por duas vezes (2005 e 2008) legalizou a rádio comunitária e inaugurou a biblioteca comunitária, com gestão da comunidade. Em outra oportunidade, destinou R$196 milhões do PAC, ação esta que já está em curso ali naquela comunidade.
Hoje, a Folha de S.Paulo traz entrevista da Relatora Ana Murad, da Moradia, que diz: “A favela atraí investimento”. Nesta mentalidade, reside um grande equívoco, apesar de reconhecermos os avanços, a vontade política e até as ações paliativas. Heliópolis precisa conquistar sua cidadania em conjunto com essas ações e acreditamos que isso só poderá se tornar realidade quando avançar contra os problemas de forma estrutural com a inclusão dos jovens em busca do primeiro emprego, o acesso à educação de qualidade, inclusive no nível superior.
Sabemos que, quando chamados para exercer o seu papel positivamente, a juventude responde com propostas renovadoras. E, assim sempre, quando é dada a oportunidade, como foi o caso da escola técnica citada, a concessão das bolsas de estudo pela Universidade São Marcos.
Sabemos todos que nossas crianças já nascem condenadas a não terem uma profissão. Quantos jovens da comunidade de Heliópolis frequentam a USP?
Com a morte de nossa jovem, Ana Cristina de Macedo, de 17 anos, já se acumulam vários episódios de violência policial, nem todos com a cobertura da imprensa, mesmo quando culmina com vítima fatal. Não é somente a perda de nosso jovem, quando realiza a chamada operação varredura, casas são invadidas, pessoas são desrespeitadas em seu direito fundamental, como o de ir e vir, isso a título de defender o estado de direito e a ordem pública, como por ocasião do episódio da menina Tainá, de oito anos, que felizmente sobreviveu, mas o método foi o mesmo, com a diferença de que a comunidade ali se viu obrigada a proteger a vida de um dos policiais que participaram do episódio,o que ontem não ocorreu, pois a vítima Ana Cristina morreu.
Na nossa coirmã favela Paraisópolis, aconteceram fatos muito semelhantes.
A UNAS – União de Núcleos Associação e Sociedades dos Moradores de Heliópolis e São João Clímaco - tem aberto o diálogo com o poder público, inclusive conversando sobre esses acontecimentos com autoridades da direção da Polícia Militar, tendo uma reunião com o Comandante-Geral da PM, com o apoio de alguns parceiros da entidade. A UNAS condena e repudia os atos de vandalismo, seja de quem for.
Lembramos ainda que, apesar do abandono do Estado, Heliópolis tem um dos menores índices de violência do Estado de São Paulo e do Brasil, mas um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano e também um dos maiores índices de pobreza.
Cabe também salientar que a imprensa no Brasil precisa contribuir para construir um Brasil melhor, inclusive em Heliópolis.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
COERENTE ALMA DO NEGÓCIO
PELO GRUPO DE RAP RACIONAIS MC´S QUE,
ATRAVÉS DA NÃO-MÍDIA,
JÁ VENDEU MAIS DE 1 MILHÃO DE DISCOS

Foram exatos cinco anos de espera desde o último grito de liberdade. Até que em uma madrugada qualquer no extremo sul da cidade de São Paulo, a calmaria cessou e a barreira da reclusão foi novamente vazada. O incômodo silêncio que já durava meia década foi despertado por uma brusca freada, seca, que rasgou a escuridão. Logo em seguida vieram os tiros e o latir dos vira-latas.
Assim, ao som de pneus cantando, estalos de arma de fogo e a conhecida repulsa do sistema no ar, os Racionais MC´s apresentaram oficialmente ao público o álbum “Nada Como Um Dia Após o Outro Dia”, - lançado em 2002, pela Cosa Nostra Fonográfica (próprio selo do quarteto).
Sem estardalhaço, manchetes de jornal, anúncios em revistas ou propagandas na televisão, o quinto trabalho dos paulistanos Mano Brown (Pedro Paulo Soares Pereira), Ice Blue (Paulo Eduardo Salvador), Edy Rock (Edivaldo Pereira Alves) e KL Jay (Kleber Geraldo Lelis Simões), vendeu mais de 300 mil cópias e fez o grupo superar a marca de 1 milhão de discos comercializados na carreira, oficialmente iniciada em 1988.
Do último CD pra cá, sete anos se passaram e muita coisa mudou. Um negro de descendência mulçumana, por exemplo, hoje governa a maior potência econômica do mundo; James Brown, Michael Jackson, e até Dercy Gonçalves já morreram. Mas a popularidade, e a forma com que o grupo a conquistou, mesmo restringindo (e muito) a divulgação das suas idéias e a distribuição dos seus trabalhos para o grande público, segue singular, e há mais de uma década desafiando a lógica comum do mercado cultural moderno, excessivamente capitalista e que prega a massificação dos meios a qualquer custo.
Ao tratar a mídia com indiferença, repulsa, evitando-a como se perseguissem o anonimato, os Racionais estabelecem novos paradigmas na relação mídia, artista e público, amedrontam a indústria musical brasileira convencional e jogam as favas os conceitos e teorias dos mestres da comunicação. Estratégia, ou melhor, linha semelhante a esta pode ser observada nos traços do inglês Bansky, famoso artista de rua (conhecido pelos seus stencils nas ruas de Londres), que nunca mostra a face e que raramente concede entrevistas. Bansky, assim como os Racionais, tem na não-mídia a melhor ferramenta para a expansão dos seus objetivos. No caso, subverter, chocar sem que para isso, como dizem, tenham que se “corromper”. Para ambos, a compreensão é mais eficaz do que o conhecimento em si.
No caso dos Racionais, o pioneirismo no movimento de Hip Hop em São Paulo, a conduta de valorização das origens (presente na atitude, nas letras e na musicalidade do grupo), a facilidade com que conseguem transitar entre “manos” e “playboys”, com letras que despejam o realismo das periferias e dos guetos paulistanos, mesmo que por vezes em exaltação ao bandido, e o expressionismo das idéias de quem veio de um lugar onde tudo ao redor é superlativo, somado a exclusividade e a fidelidade que proporcionam aos seus pares (shows do grupo podem ser vistos com relativa freqüência nas periferias da capital), são os fatores estruturais deste sucesso conquistado as avessas.
Obviamente, o talento do grupo (que coleciona fãs do calibre de Caetano Veloso) é primordial para que a linha de conduta que seguem seja bem sucedida.
A ausência em grandes casas de espetáculos, TV´s abertas e programas de rádio, é condizente as idéias defendidas pelo grupo, de que toda manifestação social, econômica e étnica que se preze deve ser contra o sistema. É aí que entra a alma dos Racionais, a coerência, no discurso e em curso. Fazer-se valer por uma palavra, sem precisar pedir desculpas depois.
segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Nem tão inovador quanto Adoniran Barbosa e seu samba carregado de humor e gírias urbanas. Nem mesmo sincopado como o catedrático Germano Mathias O swing, também não lembra o balanço de Oswaldinho da Cuíca. Contudo, a singularidade do trabalho musical de Geraldo Filme, cravada no âmago das tradições africanas, inspirada nos jogadores de tiririca (dança semelhante aos movimentos da Capoeira) do centro de São Paulo e no canto dos escravos nas lavouras de cana-de-açúcar e café, tornam o nome deste misto de compositor, historiador e intérprete, fundamental para a compreensão do processo que consolidou o samba e o carnaval paulista na primeira metade do século XX.
A afirmação, sustentada, entre outros, pelos depoimentos de estudiosos e batuqueiros da antiga (entre eles Wilson de Moraes, Plínio Marcos, Germano Mathias, Thobias da Vai-Vai e o próprio Oswaldinho da Cuíca – conforme mostra o documentário “Geraldo Filme”, 1998, do diretor Carlos Cortez), que apontam Geraldão (artista desconhecido do grande público e cuja obra limita-se a apenas dois discos gravados: um solo e o outro em parceria com os sambistas Doca e Clementina de Jesus) como o responsável por estabelecer um elo entre o samba rural nascido nas lavouras de café e cana-de-açúcar do Vale do Paraíba, e o que se consolidaria, em meados dos anos 30, como o samba urbano da cidade de São Paulo.
Negro, por parte de pai e mãe, Geraldo nasceu em 1928, na cidade de São João da Boa Vista, interior de São Paulo. Ainda pequeno mudou-se com a família para a capital, especificamente para o movimentado bairro de Campos Elíseos, que na época abrigava a sede do Governo do Estado. E foi próximo ao Palácio, na Avenida Rio Branco, que a mãe de Geraldo estabeleceu a família e abriu uma pensão.
O primeiro contato do ainda jovem Geraldão com o samba aconteceu por volta de 1937, no bairro da Barra Funda (região que, ao lado do Bexiga e Baixada do Glicério, formava o principal reduto negro paulistano naquele período), uma das paradas em que entregava as marmitas que a mãe produzia.
Coincidência ou não, o ofício de marmiteiro, primeiro emprego de Geraldão, também marcou a estréia de outro ícone do samba paulista no mercado de trabalho, o compositor, humorista e intérprete Adoniran Barbosa, que na adolescência, durante os anos 20, foi marmiteiro na cidade de Jundiaí.
Entre uma entrega e outra, Geraldo aproveitava para bisbilhotar as rodas de samba e de tiririca que os carregadores de banana e os engraxates “da antiga” improvisavam no Largo da Banana (na Barra Funda). Neste mesmo período, um dos marmiteiros que o acompanhava era um jovem negro de nome Zeca, que mais tarde ganhou o apelido de Zeca da Casa Verde e tornou-se figura importante dentro do quadro de compositores das escolas de samba de São Paulo.
Filho de um violinista, a musicalidade, despertada nas rodas do centro, sempre esteve presente na vida de Geraldo, que aprendeu a dançar e a dar as primeiras pernadas com a mãe. Mas foi com a avó, que conheceu os cantos entoados pelos escravos nas lavouras e a malícia dos ritmos negros que eram cantarolados nos galpões do interior do estado. Foi a partir desta referência musical familiar, aliada ao protagonismo das rodas de tiririca no centro de São Paulo, que Geraldo, mais tarde um estudioso da cultura afro-brasileira, iniciou sua marcante trajetória no Samba paulista, vindo a compor músicas que ganharam vida nas vozes de Beth Carvalho, Oswaldinho da Cuíca, Clementina de Jesus, entre outros.
Este ensaio monográfico, porém, mais do que apresentar a biografia de Geraldo Filme, que faleceu em janeiro de 1995, aos 67 anos, tem o objetivo de analisar uma de suas mais conhecidas obras, o samba “Tradição (Vai no Bexiga Pra Ver)” que transformou-se no hino da escola de samba paulistana Vai-Vai. Na composição, Geraldo, que abdicou os estudos (mesmo com sua mãe tendo condições de bancá-lo), compensa esta lacuna didática com a riqueza cultural absorvida nos cantos ensinados por sua avó e pela presença constante nas rodas de samba e tiririca que aconteciam clandestinamente no Larga da Banana, na Praça da Sé e na Praça Patriarca.
“Tradição” explora as principais características do Realismo, gênero cultural que desembarcou oficialmente no Brasil na segunda metade do século XVIII, quando a partir da extinção do tráfico negreiro, em 1850, acelerou-se a decadência da nossa economia açucareira, e o país experimentou sua primeira crise depois da Independência.
O contexto social que daí se origina, aliado a leitura de grandes mestres realistas europeus como Stendhal, Balzac, Dickens e Victor Hugo, desencadeia o surgimento do Realismo no Brasil, definitivamente consolidado com as publicações de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (primeiro romance realista do Brasil), de Machado de Assis e “O Mulato”, de Aluísio Azevedo, ambos lançados em 1881.
Geraldo Filme, mesmo sem saber deste histórico, descreve, a partir do contato físico cotidiano com as transformações da sociedade negra paulistana da época, a realidade do negro recém-liberto, utilizando uma linguagem simples, clara e equilibrada para narrar os anseios, a trajetória e o modo de vida do seu povo. Como acontece em “Tradição”, que apresenta sob o ponto de vista de um sambista as transformações que acompanham a modernidade.
As primeiras composições de Geraldo Filme espelham a conturbada transição entre a marginalização e o estrelato da produção cultural afro-brasileira que vivia a sociedade brasileira do período. De um lado os modernistas e intelectuais brasileiros ainda buscavam uma identificação genuinamente nacional, ao mesmo tempo em que crescia no país o interesse pelas coisas negras em geral, gosto este importado da França, onde em Paris, no fim da década de 1910 e início da seguinte, houve um crescente movimento em busca do exótico e do primitivo.
Essa valorização, porém, ao ser importada, sofria com os resquícios de uma perseguição sistemática a gêneros musicais e outras manifestações culturais atreladas aos descendentes de africanos, já que o país ainda vivia a sombra de criar uma nação sob moldes europeus com o objetivo de atingir o progresso e a civilização.
Diante deste contexto, a obra de Geraldo Filme é fundamental para a compreensão de como se deu a consolidação do samba urbano na cidade de São Paulo, incorporando as suas composições letras e características rítmicas do samba praticado pelos negros africanos que trabalhavam nas grandes fazendas do interior do estado.
Foi assim com “A Morte de Chico Preto”, “Batuque de Pirapora”, “História da Capoeira” e também com a música “Tradição”, onde na primeira estrofe, Geraldo relata a perseguição sofrida pelo samba e seus protagonistas na primeira metade do século XX. Já que mesmo na capital e mais de quatro décadas depois da abolição dos escravos, os negros que faziam suas rodas de samba ou que davam suas pernadas nas rodas de tiririca, eram perseguidos pela polícia. No linguajar popular, “o couro comia”. Sambistas da época costumavam levar uns trocados no bolso para não passarem a noite a cadeia. Assim, batucado por poucas horas e clandestinamente, o samba dificilmente amanhecia.
Na seqüência da letra, Geraldo canta a transição física do ritmo. Urbanizado após deixar as lavouras de café e de cana-de-açúcar do interior do estado, o samba passa por uma transformação ao chegar na cidade de São Paulo. Essa característica, que o distancia das suas verdadeiras tradições é cantada com certa nostalgia por Geraldo. Nesta estrofe, é o Romantismo Clássico, extraído da Era Romântica (convencionalmente encontrada entre os anos de 1815 e o início do século XX), no qual certas realidades só podem ser captadas através da emoção, do sentimento e da intuição, quem dá as cartas.
Mesmo tratando-se de uma característica que vai de encontro ao Realismo mundialmente convencionado, Geraldo une com precisão as duas escolas.
Encerrando a canção, o Expressionismo retrata o início da evolução de São Paulo. O Bexiga é o bairro escolhido por Geraldo para explicar esse fenômeno de crescimento populacional e estrutural. Do bairro, poeticamente diz Geraldo, em razão dos sobrados e pequenos prédios que começam a ser erguidos, já não se vê mais a luz do luar. Na seqüência vem à valorização dos redutos que, mesmo com a iminente popularização do ritmo entre boêmios não negros, ainda concentra as raízes históricas do samba trazido do interior, a Escola de Samba Vai-Vai é então exaltada como um local onde o samba continua sendo Samba.
Geraldo Filme, o cúmulo do samba, mais do que narrar o nascimento do samba urbano paulista, poetizou a transição de uma era dentro da música negra brasileira. Resgatou a origem do esquecido samba produzido nas lavouras do interior do estado, valorizou a luta dos seus pares e deu fôlego para que a história do samba paulista prosseguisse, também, pelas mãos de outros protagonistas.
Bibliografia
BARRETO, Felicitas. “Danças do Brasil”. Rio de Janeiro. Gráfica Tupy, 1958.
TINHORÃO, José Ramos. “Os sons negros do Brasil”. São Paulo. Art Editora, 1998.
GUIMARÃES, Francisco. “Na roda do samba”. Rio de Janeiro. MEC/Funarte, 1978.
CARNEIRO, Edison. “Samba de Umbigada. Rio de Janeiro”. MEC, 1961.
MOURA, Roberto M. “Tia Ciata e A Pequena África no Rio de Janeiro”. Rio de Janeiro. Funarte, 1983.
MARCONDES, Marco Antônio. “Enciclopédia da música brasileira – erudita, folclórica e popular”. 3º Edição. São Paulo. Arte Editora/ Itaú Culural/ Publifolha, 1998.
TINHORÃO, José Ramos. “Pequena história da música popular: da modinha à lambada”. São Paulo. Art Editora, 1991.
MUNIZ JR., J. “Sambista Imortais”. Santos. Ed. Part., 1977.
PEREIRA, João Baptista Borges. “Cor, profissão e mobilidade: o negro e o rádio em São Paulo”. Ed. Pioneira/EDUSP, 1967.
PACHECO, Jacy. “Noel Rosa e sua época”. Rio de Janeiro. Editora Penna, 1965.
GOLDWASSER, Maria Júlia. “O Palácio do Samba”. Rio de Janeiro. Zanhar Editores, 1975.
CABRAL, Sérgio. “No tempo de Ary Barroso. Rio de Janeiro”. Editora Lumiar, 1993.
ANDRADE, Mário de. “Dicionário Musical Brasileiro. São Paulo”. Editora da Universidade de São Paulo, 1989.
MORENO, Júlio. “Memórias de Armandinho do Bexiga”. São Paulo. Ed. SENAC/SP, 1996.
domingo, 16 de agosto de 2009
O GALO VOLTOU A CANTAR
álbum_Nada Como Um Dia Após o Outro Dia _lançamento_2002 _artista_racionais mc´s_gravadora_Unimar Music_produzido por_racionais mc´s, zé gonzalez e daniel ganjaman

A voz de Mano Brown, vocalista dos Racionais MC´s, narrando o início do seu próprio dia, que se confunde com o de um jovem, negro e pobre morador da periferia, anuncia o novo trabalho do mais importante e influente grupo de Rap do país.
Em “Nada Como Um Dia Após o Outro Dia (2002)”, quinto trabalho dos paulistanos Mano Brown (Pedro Paulo Soares Pereira), Ice Blue (Paulo Eduardo Salvador), Edy Rock (Edivaldo Pereira Alves) e KL Jay (Kleber Geraldo Lelis Simões), o grupo volta a narrar com precisão o universo pobre, negro e marginal daqueles que vivem nos subúrbios de São Paulo. Esta “fórmula”, aliás, é a mesma que os tornou conhecidos em todo o país com o álbum “Sobrevivendo no Inferno”, lançado em 1997.
A similaridade dos trabalhos está também na construção da base de sustentação das vozes. O ritmo, o balanço, as cordas e toda bugiganga percussiva do grupo continuam entregues as habilidades de uma única pessoa, KL Jay. O veterano DJ, fortemente influenciado pelas mais variadas vertentes da música negra norte-americana, especialmente a produzida nas décadas de 60, 70 e 80 (por nomes como Marvin Gave, Michael Jackson, James Brown, Steve Wonder), ainda está por lá, eficiente e dono da rústica cozinha dos Racionais.
Ao contrário de um punhado de rappers e grupos, alguns famosos dentro do estilo, como o paulistano Rappin Hood e o carioca MV Bill, que agregaram ao som eletrônico das pick-ups a vibração dos chamados instrumentos convencionais (cordas, percussão e metais) - muitos inclusive com o objetivo de agregar o valor de música, propriamente dita, ao ainda discriminado Rap - os Racionais mantiveram suas origens. No CD, o som é preenchido, cheio, rico em variações eletrônicas vindas das pick-ups. Apesar disso, carece de swingue, improvisos. Uma boa banda na retaguarda do quarteto elevaria a qualidade do grupo e contribuiria em faixas mais dançantes como “1 por Amor 2 por Dinheiro” e “Estilo Cachorro”.
A ausência desses recursos (que na verdade não acompanham um grupo de rap tradicional, formado apenas por Dj´s e MC´s) é recompensada pelas composições e melodias do álbum. Do começo ao fim do CD percebe-se a preocupação com arquitetura das letras e a intenção de se valorizar o conjunto como tal, ora construindo narrativas precisas, ora intercalando os vocais.
A miséria, as fitas, tiroteios, drogas e baladas, são o carro chefe do álbum (assim como no disco anterior), mas esses temas agora dialogam com mais freqüência com citações bíblicas, críticas raciais, sociais e influências que o pensamento de nomes como Martin Luther King, Malcom X, Bob Marley, Sabotage, Lampião e outros idealistas exercem sobre o grupo.
Para os Racionais, “Nada Como Um Dia Após o Outro Dia” é mais do mesmo, mas com mais tempero. Para quem há cinco anos aguardava o galo cantar, é tudo.
terça-feira, 11 de agosto de 2009
UM ROMANCE DE GERAÇÃO
filme: Um Romance de Geração
Brasil/2008
Direção: David França Mendes
Com: Isaac Bernat, Lorena da Silva, Susana Ribeiro, Nina Morena
Duração: 80 minutos
Classificação: 14 anos

Complexo, conceitual e extremamente alternativo, quase documental. O filme “Um Romance de Geração”, do diretor David França Mendes, baseado do livro homônimo do escritor Sérgio Sant´Anna, faz jus, comercialmente falando, ao fato de estar sendo exibido em única sala em toda a cidade de São Paulo.
Do início ao final do filme (que conta a vida do escritor Carlos Santeiro, esquecido pela mídia por não conseguir emplacar novos trabalhos após o sucesso do primeiro e único romance que publicou) o experimentalismo é que dita a cadência da produção.
A quebra de ritmo provocada pelas constantes inserções que intercalam a história de Santeiro com diálogos envolvendo o grupo de atores protagonistas do filme (Isaac Bernat, Lorena da Silva, Susana Ribeiro e Nina Morena), acompanhados de David França e Sérgio Sant´Anna, lendo trechos do livro que será adaptado, evidencia que a produção foi pensada e produzida para ser exibida em festivais ou em salas alternativas, sem a pretensão de agradar o grande público, chegando até mesmo flertar com o amadorismo, tamanha despreocupação com a estética das cenas e a densidade dos diálogos.
Underground pelo formato experimental e didático do ponto de vista que as seis pessoas diretamente envolvidas com a produção do filme são frequentemente registradas através de inserções que os mostram discutindo e apontando as melhores saídas para a adaptação da obra ao cinema, o despretensioso “Um Romance de Geração” demonstra claro objetivo em atingir a classe artística, o chamado público intelectual e os cinéfilos apreciadores de filmes não-comerciais.
Ora concentrado em França, Sant´Anna e nos atores (captados em close e em conversas informais), ora na história de Santeiro, “Um Romance de Geração” se passa no final de década de 70, na cidade do Rio de Janeiro, e retrata as paranóias e inquietudes que perseguem um escritor que viu seus 15 minutos de fama afundar em um copo de vodca ao não conseguir dar seqüência a sua boa estréia no mundo literário. Esquecido pela mídia, seu principal objetivo é escrever o Romance de uma geração, um livro capaz de agradar toda uma leva de homens e mulheres que cresceram em meio às manifestações militares e estudantis que acometeram o Brasil na década de 60.
Pouco talentoso, como ele próprio se define, Santeiro, que aponta a sorte como a principal causa do seu repentino sucesso, é o típico estereótipo do escritor do início da segunda metade do século XX, quase sempre representando por um sujeito de palavras difíceis, sem vaidades, vida boêmia e meio cafajeste.
Deprimido, afundado no álcool, viciado em corridas de cavalos e tomado por uma profunda impotência produtiva, ele observa em uma jornalista (interpretada por três artistas diferentes) escalada para entrevistá-lo, a oportunidade de voltar à mídia ou, no mínimo, ter uma animada noite de sexo.
Ao mesmo tempo em que a compreensão do filme é dificultada pelas freqüentes inserções, troca de atrizes que representam um único papel, ausência de trilha sonora e diálogo denso, esses também são os principais atrativos de “Um Romance de Geração”.
O processo de criação e experimentação, evidenciados nos diálogos envolvendo os atores, o diretor e o escritor da obra original, que tem a pretensão de ser espontâneo e demonstrar que os textos não foram decorados, é rico em detalhes, como se o filme reuni-se ao mesmo tempo o ensaio e a obra finalizada. Esta característica documental e auto-explicativa assemelha-se a estrutura utilizada no filme “Como fazer uma história de amor”, do diretor José Roberto Torero.
Entre alhos e bugalhos, “Um Romance de Geração” não deve agradar ao público habituado as grandes produções nacionais, com atores globais e desfiles de corpos sarados, tão pouco a quem procura uma grande história, mas contentará os ávidos por experimentações que apreciam formatos que fogem da mesmice do mercado cinematográfico. Um verdadeiro chute no traseiro da indústria cultural.
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
África em Nós: Arquitetos da cultura brasileira

Interesses políticos à parte, trata-se de uma excelente iniciativa, ainda mais por vir de cima para baixo, ou seja, de quem deveria dar o exemplo, mas que durante décadas procurou camuflar do povo a “incamuflável” contribuição do elemento negro não somente no desenvolvimento econômico e na formação cultural do Brasil, como, também, no idioma, costumes, trajes, religião, cozinha, artes e, sobretudo, na música.
Mas nosso país tropical, que desde Cabral sempre mostrou-se incapaz (ou coagido) de externar suas vontades, desejos e, principalmente, que jamais teve coragem de assumir sua vocação multi-etnica, negando suas origens indígenas e africanas, hoje, seduzido pela globalização, dá a impressão de ter perdido o tempo de adquirir uma identidade pura e própria, para se esbaldar (ou se agregar) na cultura dos outros.
Durante séculos, do descobrimento, passando pela monarquia a chamada democracia contemporânea, o Brasil, que sempre perseguiu uma identidade cultural própria, jamais percebeu, ou admitiu, que esta esteve sempre debaixo do seu nariz, seja encabeçada pelos índios (primeiros “donos do pedaço”), mas socialmente excluídos (e também escravizados) pelos portugueses que aqui chegaram, ou pelos negros, igualmente escravizados e que durante anos foram considerados, em tudo, inferiores ao branco, que esnobou, enquanto pode, a contribuição deste povo na formação do país.
Hoje, mais 500 anos depois do descobrimento do Brasil, seu povo, menos internacionalizado que outrora, é verdade, ainda segue órfão de uma verdadeira e autêntica identidade cultural que englobe todo o país.
Revirar os arquivos históricos de um passado nem tão distante assim, talvez seja a melhor forma de encontrar essa caracterização intensamente procurada no início do século XIX e que ainda nos dias atuais, já totalmente fragmentada e colorida, custa a aparecer.
A importância da campanha África em Nós está justamente aí, pois ao propor a valorização da nossa diversidade cultural, a campanha estimula os participantes a olhar para suas origens, suas raízes. Este resgate é importante, se não essencial, para a formação de um país mais justo com seus verdadeiros arquitetos devidamente valorizados e reconhecidos.
+ INFO: http://www.africaemnos.com.br/
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Cacildis! Quanta saudadis!

É claro que este concorrido lugar ao sol, independente da cor, religião ou tostão do cidadão, deve ser conquistado, com doses extras de talento, dedicação e trabalho, principalmente para os que não se enquadram nos padrões de beleza estabelecidos na contemporaneidade e tão pouco são afortunados financeiramente.
Esse pedacinho quente da praia onde a luz brilha e o sol queima, também conhecido como sucesso, também pode ser comprado, como acontece em muitos casos. Afinal, no mundo moderno, com dinheiro, pode-se comprar muita coisa, quase tudo eu diria. O emprego, a modelo, o amigo e o cabelo, mas a felicidade e inteligência da população são alguns dos poucos valores que, ainda, não estão a venda.
Esta mesma sociedade capitalista que comercializa tudo o que vê, é a mesma que impõe uma série de obstáculos para seus irmãos de outras etnias, dificultando o acesso para que estes colocam a sua cadeira de veraneio para arder no sol das oportunidades. Por isso, para este grupo, o simples fato de aparecer já é uma conquista.
Tornar-se referência, porém, ao contrário da conquista da oportunidade (que as vezes pode até surgir sem muito esforço), só vem com a qualidade, trabalho e o famoso jeito pra coisa, também conhecido como dom.
O carioca Antônio Carlos Bernardes Gomes tinha esse dom, além de muitas outras qualidades artísticas. E foram por causa dessas prerrogativas que ele se tornou o Mussum, o cara que tinha tudo para ser apenas mais um, mas que pelo seu carisma (convenhamos, comum aos negros brasileiros) se tornou "o" número um, e roubou a cena daquele que talvez seja o mais importante grupo humorístico da história da TV brasileira, Os Trapalhões.
Musical, percussivo, alegre e espontâneo, o puro e verdadeiro estereótipo do homem brasileiro, Mussum, artista com A maiúsculo, fazia extremamente bem feito e com espantável naturalidade e sem muito esforço, tudo o que se comprometia a executar.
Na música, fundou e integrou durante anos Os Originais do Samba, daí o seu andar malandro, sua gíria suburbana e seu jeito simples de falar. No humor, marcou época. De coadjuvante, tornou-se ao lado do também genial Zacarias, a alma dos Trapalhões.
Apesar do estereótipo que com freqüência representava no humorístico, o do negro engraçado, bêbado e vagabundo, Mussum enobreceu a raça negra com seu talento e sua pulsante e veia artística.
O Kid Mumu da Mangueira, como ele mesmo se chamava, tirou onda e se esbaldou no sol que conquistou. Dos batuques na quadra da Escola de Samba Primeira Estação de Mangueira, passando pelo swing dos Originais do Samba até chegar ao seu humor espontâneo frente às câmeras da principal emissora do país, seu bronzeado ficará para sempre na história da TV e da música brasileira.
Cacildis! Quanta Saudadis!
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Recusados por Natureza II
Andar pelas ruas, sem destino e sem norte, em busca da sorte de encontrar um suporte singular. Roupas, pele e cabelos sujos de tinta. Arte equilibrista. Ora marginal, ora conceitual. Quase sempre mal vista.
Queimados do sol, molhados da chuva, mesmo nas mais diversas temperaturas fazem da rua o seu habitat natural. Mendigos, empresários, homens e madames, não importa quem é, quem foi ou quem será, seus traços, democráticos e onipresentes nas grandes capitais, não empoe barreiras. É de todos. Pleiteiam, quando muito, a atenção de um olhar.
A densa arquitetura de concreto e aço erguida aos montes nas grandes metrópoles, delimitando quem vem e quem vai pelos espaços, é cuidadosamente analisada. Entre muros, texturas e portas de ferro, nada é alto, baixo ou inalcançável. Tudo pode ser utilizado.
A coragem, o equilíbrio, o dia e a noite, são igualmente testemunhas dos seus traços nem sempre consentidos ou autorizados.
No caso dos irmãos gêmeos, e univitelinos, Gustavo e Otávio Pandolfo, nascidos e criados no bairro paulistano do Cambuci, e que formam a dupla de grafiteiros Os Gêmeos, cuja trajetória artística, talento e ousadia tornam-se referência mundial, tudo parte do amarelo. Cor primária, forte, intensa e que, assim como as demais cores da sua categoria (o vermelho e o azul), não pode ser decomposta em outras cores, ou seja, é singular como as obras dos irmãos Pandolfo.
Contudo, a tonalidade utilizada no trabalho da dupla, como se tivesse a intenção evidenciar os detalhes da obra rompe com o tradicional impacto visual causado pelo amarelo vibrante da luz do sol, ou mesmo com o amarelo-ouro da bandeira nacional. Trata-se, na verdade, de um amarelo opaco, tímido e meio sem brilho, porém, expressivo.
Apesar da desenvoltura com que traçam as letras arredondas e de difícil assimilação dos grafittis clássicos, são com os personagens amarelos que a dupla mostra a essência e a complexidade de suas criações. Usam e abusam do Expressionismo, mostrando-se mais interessados na interiorização da criação artística do que em sua exteriorização, projetando na obra de arte uma reflexão individual e subjetiva. O cotidiano quente e sofrido dos confins nordestinos, as mazelas sociais das grandes metrópoles, a sutileza feminina, inocência juvenil e a magia circense são as características mais presentes nas obras da dupla.
Por isso, corriqueiramente, os irmãos Pandolfo retratam em seus trabalhos seres humanos solitários e sofredores, com a visível intenção de captar estados mentais, que podem ser vistos em vários quadros e painéis de personagens deformados. Deforma-se a figura, para ressaltar o sentimento.
Em pleno século XXI, onde cada vez mais somos indivíduos, em plena era da valorização da singularidade humana, o graffiti, como movimento, formado em sua maioria por jovens, nem sempre assalariados, mesmo que inconscientemente, organiza-se, remetendo o grosso da sua produção, no que diz respeito à manifestação coletiva, a uma série de movimentos artísticos.
O Dadaísmo, surgido em 1916, na Suiça, pelas mãos e mentes de inquietos jovens artistas franceses e alemães, é um deles. Já que assim como fizeram Marcel Duchamp, Hans Arp, Man Ray e outros importantes “dados”, as principais produções de graffiti não possuem estética ou função específica, enquanto os artistas aparentam falta de sentido em suas criações, defendendo, e praticando, o absurdo, a incoerência, a desordem e o caos.
Contestam leis, paradigmas e, ideologicamente, ou seja, sem pretensões financeiras, em pleno auge da Indústria Cultural, da cultura de massa e da reprodutibilidade técnica da obra de arte, onde a cultura é (quase) sempre o meio para obtenção de fins lucrativos, quando não obscuros, eles privilegiam o anarquismo, a arte pela arte, chegam e vão ser convidados.
Apesar de ter oficialmente nascido nos braços do movimento Hip Hop - manifestação cultural urbana iniciada no final da década de 60, nos Estados Unidos, como forma de reação aos conflitos sociais e à violência sofrida pelas classes menos favorecidas da sociedade responsável por exportar as técnicas e características dos desenhos e letras inclusive para o Oriente - o graffiti, em razão do seu dinamismo e forte poder de persuasão entre os jovens, tomou corpo, bateu asas e voou. Hoje, com a globalização, é uma arte sem fronteiras, sem cor e sem barreiras, feita e vista por todos, porém, compreendida por poucos.
Ao utilizarem a rua como ateliê, tendo a arquitetura dos arranha-céus e os muros das fábricas abandonadas como os únicos suportes “oferecidos” para a suas manifestações, outrora marginalizadas e extremamente mal vistas, o graffiti, mesmo com algumas mudanças culturais, segue como uma arte paralela, underground e, em sua imensa maioria, fora do circuito comercial das artes. Neste caso, as ruas das cidades, pelo menos por ora, funcionam como um eterno Salão dos Recusados para esse movimento artístico, onde a arte tida como marginal, recusada nos grandes museus e galerias, tem suas próprias leis, limites e, principalmente, seu espaço.
As semelhanças com o “verdadeiro” Salão dos Recusados, ou Salon des Refusés, exposição paralela ao Salon de Paris, em 1863, onde foram expostas as obras de arte recusadas no salão oficial, que era destinado aos artistas membros da Real Academia Francesa de Pintura e Escultura, pode ser mensurada também na valorização que o novo suporte ganhou com a chegada, ou ascensão, de tal manifestação.
Já que assim como os trabalhos expostos no Salon des Refusés passaram a ser um forte concorrente ao salão da academia e, a partir daquele ano, muitos artistas passaram a organizar exposições autônomas, o mesmo aconteceu com as ruas que, com a disseminação do Graffiti, também passou abrigar fotógrafos, pintores, atores e outros artistas que, organizados, articulam-se de forma independente.
Por ser livre e sem as barreiras físicas e sociais dos museus e galerias, o graffiti, especialmente o produzido pelo GEMEOS, claramente influenciados pelos expressionistas, possui um forte apelo social. Por dialogar com todas as classes e faixas etárias, que se dão ao trabalho de observá-los, eles conscientemente produzem trabalhos de cunho social. Obras que cruzam elementos e características similares ao do Teatro do Oprimido, criado pelo teatrólogo brasileiro Augusto Bocal. Ao estimular a discussão de um tema no qual existe um conflito claro e objetivo e o desejo e a necessidade de mudança, assim como na obra do jovem encapuzado que corre com um televisor nas mãos, os GEMEOS colocam o espectador como protagonista da obra de arte, despertando neste, na entrelinhas apresentado como principal ferramenta de transformação da situação representada, o espírito do oprimido e, deste modo responsável direto por apresentar alternativas, ou pelo menos questionamentos, que mudem o rumo dos acontecimentos.
Assim como as demais referências históricas até aqui apresentadas, seria impossível não traçar um paralelo entre a atividade dos irmãos Pandolfo e o artista Jean-Michel Basquiat, que no final dos anos 70, despertou a atenção da imprensa novaiorquina, sobretudo pelas mensagens poéticas que deixava nas paredes dos prédios abandonados de Manhattan. Posteriormente Basquiat, que ganhou prestígio e bagagem nas ruas, recebeu o rótulo de neo-espressionista e foi reconhecido como um dos mais significativos artistas do final do XX.
Hoje, com obras expostas nas principais galerias e museus do mundo, OSGÊMEOS, como Basquiat, também foram rotulados, e hoje são conhecidos como um dos principais nomes da Street Art.
Mas será que a polivalência artística da dupla pode ser definida em um único nome?
Talvez, mas é o espírito anárquico e engenhoso que ainda persegue o pensamento dos irmãos Pandolfo, eternos expositores do Salão dos Recusados do mundo moderno, as ruas, que os satisfazem. Pra sorte dos paulistanos, a próxima satisfação deles pode estar bem ao nosso lado.
Recusados por Natureza I

Um homem corre. Não se sabe do que, de quem, nem por que. Solitário, molhado de tinta, estampado em uma textura envelhecida e rachada no bairro paulistano do Cambuci, ele segue a passos largos rumo ao infinito.
Com os olhos fixos nos que ousam a buscar o seu olhar, exibe um semblante assustado, de quem a pouco foi quase capturado.
Tronco curvado pra frente, cotovelos e braços rentes às costas, misteriosamente carrega nas mãos, soltas no tempo, uma antiga televisão azul 14 polegadas. O fio que a leva tomada, no ritmo dos seus passos, flutua, deixando o passado para trás.
Agasalho cor de vinho, tênis pretos e sem meia. Cabelo curto, raspado dos lados, estilo de cadeia.
Tem as canelas e os braços finos, franzinos de doer, quase que uma estrutura juvenil comum nos que costumam correr. Mas sua as vantagens físicas estacionam por aí. Corcunda, saliente das coxas a cabeça, esta grande e chata, é Bela e Fera simultaneamente.
Mas o que move este homem amarelo em atitude suspeita, que na espreita corre por aí? Será ele um ladrão de sonhos e ilusões? Ou um revolucionário libertador, querendo, a conta gotas, livrar a sociedade do seu maior modelo de conduta?
Harmonicamente distribuídas no muro, às cores primárias que acompanham o desengonçado sujeito, o azul (representado pelo televisor), o vermelho (do agasalho) e o amarelo do personagem, dão vida, ritmo e movimento a obra que, sentimentalmente, se propõe a questionar os valores da sociedade moderna ocidental, esta, globalizada e capitalista ao extremo.
O Homem que Corre, ao disparar mascarado pelas ruas de São Paulo com uma TV nos braços, enfatiza, questiona e expõe a sociedade, a supervalorização do capital e dos verbos ter, possuir e ser na contemporaneidade. Assim como o próprio papel da TV como meio comunicador.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Capitalismo Selvagem!

Homens, mulheres, crianças, idosos, em fim, famílias inteiras, jovens descamisados, sem eira nem beira, tudo podem, ou pensam que podem, nesta brincadeira.
A meta é se divertir, não importa o que ou quem esta por vir. O que vale é beijar, dançar, pular, passar a mão, encher a cara e andar na contra mão.
O engajamento é secundário, agora são os lucros e a política é que dão o tom primário.
Tudo é liberado, homem com homem, mulher com mulher, o álcool e o baseado.
Votos e dinheiro vem primeiro. A ideologia, sem demagogia, de recheio do bolo virou mais um brigadeiro.
Não vejo diferença entre a Virada Cultural e a Parada Gay de São Paulo. Umas trás mais votos, outra mais dinheiro, na essência, ambas perderam-se por inteiro.
O Capitalismo é assim, selvagem, e mesmo com maquiagem, sempre mostra a sua cara.
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Códigos de ética e as leis das ruas

No início da segunda metade dos anos 90, quando tinha por volta de 14 anos mais ou menos, o cair da noite e a chegada da madrugada soavam, para mim, como um despertador para uma nova realidade.
Naquela época, o entardecer era minha porta de entrada para o mundo marginal, perigoso e que em nada lembrava a comodidade do meu lar.
A escuridão do céu, o brilho das estrelas e o eco das ruas vazias foram durante anos as únicas testemunhas das minhas andanças noturnas.
Era neste cenário, geralmente acompanhado por mais um ou dois amigos, que liberava minha testosterona juvenil e minha rasa criatividade e onde meu espírito aventureiro aflorava. Latas de spray na cintura, por vezes um galão de neutrol na mochila, o dedo suja de tinta, várias idéias na cabeça e os pés na estrada.
Posso afirmar que a pixação, manifestação que conheci através de um vizinho, dois ou três anos mais velho do que eu e que no início dos anos 90 escrevia nos muros do bairro o nome da torcida organizada do time da cidade, foi quem me apresentou a realidade das ruas, seus perigos e encantos.
Lembro-me perfeitamente que foi através da pixação que comecei a fazer minhas primeiras “leituras” do mundo e das pessoas.
Sem dúvida foi um período essencial para minha formação, em todos os sentidos. Protagonizar uma manifestação ideológica como essa foi uma experiência sem precedentes, por mais problemas que tenha me causado.
Os pouco mais de três anos de convivência explícita com a rua me fizeram respeitar essa contestadora manifestação (considerada por muitos como uma rebeldia sem causa de um bando de tolo energúmenos que não tem mais nada para fazer), a ponto de enquadra-la, conceitualmente, como arte. Seu processo criativo, operacional e de produção, a meu ver, legitimam esta qualificação.
Apesar de aparentemente passar por cima de tudo e de todos, sem olhar para cima, para baixo ou para os lados, a pixação, assim como qualquer outra manifestação coletiva, possui alguns códigos de ética, mesmo que não estabelecidos formalmente.
O ato de atropelar, ou seja, escrever por cima de uma outra pixação, por exemplo, talvez seja o mais significativo item deste código de conduta. Um deslize como esse, intencional ou acidentalmente, não raramente acaba mal. Dentes quebrados, luxações, ossos fraturados e até mesmo a morte podem ser as conseqüências desta quebra de decoro. A Lei das ruas não perdoa tal infração.
Quando pixava, além deste componente, e ainda hoje como grafiteiro desautorizado que sou, costumo seguir algumas outras condutas como não fazer intervenções em:
- muros novos ou intactos (sempre privilegiei texturas e ambientes degradados pelo tempo. Artisticamente promovem um diálogo mais interessante com o que é proposto);
- determinados equipamentos públicos;
- por cima de pixações, grafittis, esculturas e monumentos alheios.
Hoje, após anos e anos de indiferença, a ainda marginalizada cultura urbana extremamente presente no cotidiano das grandes capitais parece ter entrado na agenda de discussões do poder público e da própria sociedade civil. Para infelicidade dos verdadeiros pixadores, que querem apenas serem reconhecidos por seus pares, mais ninguém.
Tudo bem que seria quase que inevitável a pixação entrar na ordem do dia, tendo em vista tamanha atuação deste movimento nos grandes centros, em especial em São Paulo.
Porém, quando veio a tona, a democrática manifestação, da forma como tomou corpo e se popularizou na cidade, foi descaracterizada. Impulsionada por eventos polêmicos, liderados por pessoas que não representam o verdadeiro sentimento da maioria, como as invasões da Bienal, da Galeria Choque Cultural e ao ataque ao painel de grafittis do vão da Avenida Paulista, a pixação ocupou lugar de destaque nos noticiários.
Algo semelhante a esses ataques voltou a acontecer no último final de semana, em proporções menores, é verdade, mas com os mesmos graves sinais de quebra de decoro que permeiam o inconsciente dos pixadores.
Acontece que a bela Fonte Monumental, localizada na Praça Julio Mesquita, no Centro de São Paulo, amanheceu pixada na segunda-feira (08/06). O ato deste pixador, que rompeu com o código de ética dos artistas de rua ao rabiscar uma obra alheia, deixou centenas de pessoas descontes, gerou discussões e chegou as páginas dos principais jornais da cidade.
Contudo, na pixação, o ibope, a fama ou o reconhecimento (como preferirem), não é legítimo ser for pré-orquestrado, ou “patrocinado” por uma emissora de TV ou por um jornal de grande circulação. O verdadeiro pixador não utiliza o movimento como meio para obtenção de “ibope”, a pixação é o fim, sua concretização é que deve ser alcançada. Os méritos são conquistados noite após noite.
Mas se era a efemeridade da obra o que eles buscavam, certamente conseguiram. Certamente não representam à maioria.
Arte, mesmo que pela própria arte, deve ser a cima de tudo, respeitada. Os pares, ao menos, devem ser preservados.
Lei a baixo um pequeno histórico sobre a Fonte Monumental
A escultora Nicolina Vaz de Assis Pinto do Couto foi contratada pela Prefeitura de São Paulo, em 1913, para construir uma fonte de mármore branco de Carrara e bronze, destinada a embelezar a esplanada em frente à Catedral da Sé, mas imprevistos atrasaram sua implantação em mais de dez anos. Optou-se, então, por destiná-la à Praça Vitória, junto à avenida São João e as ruas Aurora e Vitória, no bairro de Santa Ifigênia. A medida visava embelezar a avenida mais larga da cidade na época. Em 1927, a fonte foi montada e inaugurada. No mesmo ano, a praça passou a se chamar Júlio Mesquita.
domingo, 7 de junho de 2009
Prazer, Indústria Cultural!

A termologia Indústria Cultural, criada no final da década de 40 por um grupo de filósofos e sociólogos da Escola de Frankfurt, nasceu, logo após o boom da Revolução industrial, com o objetivo de definir o início de uma nova era, a da conversão da cultura em mercadoria, ou seja, para estabelecer cronologicamente quando a produção cultural, e porque não a intelectual também, passou a ser guiada pela possibilidade (e muitas vezes com a finalidade) de consumo.
Dessa maneira, manifestações artísticas que se sustentavam única e exclusivamente pelo seu caráter ideológico, contemplativo e artesanal, transformaram-se em produto. Muitos, devorados pela Cultura de Massa, ultrapassaram a barreira mercadológica, foram tragados pelo mercado e tornaram-se pop, rendendo furtunas, nem sempre a quem de direito.
Além de excessialmente transformadora, toda revolução causa profundas mudanças sociais, políticas e econômicas, com a Revolução Industrial, uma das mais importantes dos últimos séculos, não foi diferente.
Acuada e acompanhando a evolução natural dos tempos, a produção cultural e os artistas viram-se obrigados a integrar este novo paradigma que se apresentava, nem bom, nem ruim, mas parte integrante da evolução a qual somos diariamente submetidos.
Porém, algumas manifestações, caracterizadas como marginal e contraculturais, sobreviveram, na medida do possível, a essa avalanche capitalista.
Caminhando algumas casas deste jogo da vida e chegando até o início do século XXI, precisamente nos anos 2000, e em especial na terra brasilis, temos alguns exemplos desta resistência, não necessariamente imposta pelos protagonistas destas manifestações, mas também pelo mercado, anestisiado e protegido do novo, desconhecido e audacioso.
O Rap, o break, o grafitte e a pixação, por exemplo, são segmentos que há anos travam uma interessante queda de braço com a a Indústria Cultural. Alguns, mesmo que em curtos e específicos momentos da história, venceram a briga com a maioria branca e conservadora responsável por “mandar soltar e prender”, e nadaram de braçada no mercado consumidor.
A renovação na estrutura, por vezes até no comando dos grandes veículos de comunicação do país (principais responsáveis por disseminar o que deve e o que não deve ser consumido), somada a força dos nichos onde essas manifestações se dão, foram fundamentais para as conquistas obtidas por esses segmentos artísticos especificamente.
Se a popularização de produções que outrora gabavam-se por serem undergorunds melhorou, ou piorou a vida os protagonistas destas manifestações só o tempo dirá. Mas as preces de quem um dia quis ver a cultura marginal ser absorvida por um mercado mais amplo, fiannceiramente capaz de consumir o que a Indústria Cultural oferece, pode estar perto de se concretizar.
Uma rápida passagem pela década de 90 nos faz lembrar que a primeira manifestação, entre os segmenbtos artíticos já citados n texto, a sair do seu nicho de mercado para percorrer as páginas e programas dos principais meios de comunicação do Brasil foi o Rap.
Em meados de 1997/98, logo após lançarem o estrondoso álbum “Sobrevivendo no Inferno”, Mano Brown, Ice Blue, Edy Rock e Kl Jay, levaram o Rap e o cotidiano das favelas para os ouvidos da classe média e alta, na ocasião, especialmente o fênomeno Racionais MC´s.
Todos queriam saber quem eram aqueles caras de roupa larga e mal encarados do extremo sul de São Paulo que, com uma frase, formavam a opinião de multidões. Influenciando desde favelados, até mauricinhos. Inteligentemente, fizeram do veneno da Indústria Cultural o seu antídoto, recusaram a mídia, as revistas, os jornais e os programa de TV, o mistério sobre o que pensavam, vestiam ou falavam transformou-se em dinheiro, para o grupo. Outros talentosos conuntos e MC´s aproveitaram a onda formada pelo grupo e, até hoje, surfam por aí, populares e de mãos dadas com a Indústria Cultural que um dia os esnobou.
Apesar da chacoalhada no mercado proporcionado pelos Racionias, o Rap, ao contrário do que acontece nos EUA, não alavancou. Apesar de definitivamente ter entrado para o mundo dos negócios, o ritmo ainda segue sendo visto com preconceito. “Macaca véia” a Indústria Cultural sabe que, apesar de não ter conseguido implacar o Rap da maneira que desejava, não pode dar as costas a uma manifestação musical tão presente no cotidiano dos jovens brasileiros, e por isso continua atenta ao que pode, ou não, vir a ser lucrativo dentro deste universo.
Logo depois do Rap, veio o Grafitti, que pelas mãos dos gêmeos Gustavo e Rodolfo tornou-se pop e lucrativo. Das ruas, ganhou as galerias, museus e a sala de umpunhado de jovens abonados. Hoje em dia não é raro vermos grafiteiros envolvidos em mega eventos como a SPFW e o Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1.
Na era da reprodutibilidade técnica, porém, muitas das produções “comerciais” reproduzidas por esses artistas são efêmeras, não passando de rabiscos sem significado algum, porém extremamente lucrativas para muitas as partes que, com sorte, desfrutam deste nicho de mercado. Criação de sprays específicos para Grafitti, revistas segmentadas e lojas com tintas importadas também integram esta industrialização que, se ainda não atingiu o seu ápice, é massiça e, ao contrário do Rap, conquistou prestígio entre as classes mais altas e os formadores de opinião.
Mais próximos da arte propriamente dita, o break, o rap e o grafitti dificilmente deixariam (ou deixarão) de ser abocanhados pela Indústria Cultural. Difícil é imaginar a contestada, pervertida, rebelde e marginal pixação integrando esse bolo. Mas por incrível que pareça (e pela forte atuação dos seus protagonistas), ela vem saindo da obscuridade das noites frias de São Paulo para as páginas de jornais e revistas, teses acadêmicas e documentários.
Mas se por um lado era difícil de imaginar que veríamos a pixação ser levada a sério por galeristas, por um conceituado fotgógrafo da Folha de São Paulo (a ponto do mesmo transformá-lo em documentário), ou mesmo pela Fundação Cartier, de Paris, que recentemente convidou um pixador de São Paulo para expor sua caligrafia nas paredes desta conceituada instituição, também estava mais do que óbvio que a esperta Indústria Cultural não deixaria escapar a oportunidade de transformar em mercadoria uma manifestação tão presente quanto água nas rodinhas adolescentes da capital.
Contudo, ao contrário das demais produções artísticas aqui citadas, a pixação não tem esse caráter exibicionista no que diz respeito a atrair a atenção de milhares de pessoas. O pixador quer dialogar com determinado público e ponto. Suas letras, inclusive, mal conseguem ser interpretadas pela grande maioria das pessoas.
Caso o pixador não tenha outros interesses a não ser subverter, ele não quer dar as caras nos jornais e tão pouco ser entrevistado pelo Zeca Camargo, no Fantástico. A adrenalina, a rebeldia (muitas vezes sem causa) os dedos manchados de tinta e os outros pixadores são suas únicas testemunhas.
Inteligente e bem assessorada, a Indústria Cultural pode até encontrar saídas para “vender” essa manifestação, mas não será para a anestesiada grande massa, como parece que ela está tentando fazer. As chances da lucrativa Indústria Cultural quebrar a cara, se continuar a oferecer o produto em larga escala (em mídias que tratam o segmento com desdenho) e a quem desconhece seus princípios e conceitos, são grandes.
Porque para o pixador, a massa deve ser corrida, pra parede ficar lisinha. Quanto mais mocosado melhor, e se quiser comprar, procure, consuma com os olhos e fale para o maior número possível de pessoas que “ele quebrou”.
Está aí mais um bom desafio para você, Indústria Cultural. Bom apetite!
quinta-feira, 4 de junho de 2009
A ARTE VENCEU!

Tão pouco a vitória teve participação da iniciativa privada, que (apesar de reunir pessoas com boas intenções e interessadas em contribuir para seu fortalecimento) também foi absorvida pela indústria cultural onde a mercadoria só tem importância se tiver valor mercadológico.
A Arte, na verdade, venceu pela arte. Pelo seu poder de encantar, questionar, entreter, comover e embaralhar a cabeça do seu receptor.
Não é a primeira, e também não será a última vez que a arte demonstra seu fôlego e sua capacidade.
Desta vez, porém, a conquista teve um sabor especial. Primeiro pela dificuldade. Segundo pelo terreno onde ela se deu, o elitizado Masp (Museu de Arte de São Paulo). E em terceiro lugar pelo valor (material) desta vitória, exatos R$15 por cabeça pensante.
Explico: o Masp divulgou no início dessa semana o balanço das visitas que o Museu recebeu no último mês de abril, 73.456 visitações, o maior público para um único mês em dez anos.
De acordo com a pesquisa, este ano, o público do Masp está 33% maior do que em 2008. De janeiro a abril, foram 203.247 visitantes. No mesmo período do ano passado, foram 152.578. Em 2008, com 599.804 visitantes, o Masp registrou queda de público de 4% em relação a 2007, após cinco anos de altas.
A conquista da arte, por sua vez, não pertence ou tão pouco foi patrocinada pelo totalitário Masp ou pelo seu corpo administrativo.
No caso, a grande conquista da arte, legitimada pelo público, está no fato de que o Masp, instituição privada, mas que sobrevive graças as contribuições do poder público municipal, absurdamente cobra de seus visitantes R$15 de entrada, inviabilizando o acesso de milhares de pessoas a um rico e histórico patrimônio cultural que, sim, deve ser preservado, mas não monopolizado por uma minoria aristocrata que acredita que a arte tem cor e classe social.
Apesar dessa barreira financeira, o Museu registrou um significativo aumento em suas exposições este ano.
Hoje, o conhecimento, assim como a informação, é livre, gratuito e essencial para o desenvolvimento e (re) conhecimento do indivíduo como cidadão e da sociedade como um todo.
No fundo, a arte venceu graças ao seu mais fiel seguidor, o público, que vislumbrado pelo seu encantamento e poder de sedução, cedeu a crise e as imposições do mundo capitalista que vivemos, deixando-se levar pelos questionamentos e beleza de uma obra que por alguns minutos foi só sua.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Passarela Verde e Amarela

Sem face, sem passe, sem eira e nem beira, quis a elite brasileira que se esbranquissase.
Essa falsa padronização, que fere inclusive as leis da natureza, começou no mercado de trabalho, foi para as salas de aula e hoje atinge até o mundo da beleza.
Agora, nas passarelas, o pedido é por mais donzelas que representem a miscigenação brasileira.
Dizem que disponibilizarão 10% de representatividade, mesmo sabendo que dos 190 milhões brasileiros somos quase a metade.
Azar das grandes grifes, marcas e designers, que tentam em vão representar nossa tropicalidade, quando no fundo mascaram a nossa escura realidade.
Azar do varejo, pois na era da imagem, vestimos o que vemos, mesmo sem dinheiro, temos bom gosto e somos vaidosos o ano inteiro.
Quem perde também é a modelo, que precisa do dinheiro, mas só encontra mercado no estrangeiro.
Onde é reconhecida por sua mulatocidade, pernas longas, cintura fina e brasilidade.
Minha grife não esconde as raízes da sua origem, tem o branco, tem o preto e o aborígine.
Tá na rua, tá na pista, tá no show, sem imoralidade passa a bola e faz o flow!
A questão não é de cota, nossa cara não é esmola. Preto quer escola e não saco de cola!
quinta-feira, 21 de maio de 2009
A Rinha, o Centro e o Rap!
Dono de uma suntuosa arquitetura e território de inspiradas construções do século XIX, o agitado e incrivelmente povoado centro de São Paulo, especialmente com o anoitecer do dia, costuma provocar calafrios em que ousa perambular por suas mal iluminadas e estreitas ruas e vielas.Refúgio de moradores de rua, desempregados, nóias e bêbados que disputam as mais confortáveis portas de aço do comércio local, o centro de São Paulo, especialmente ao escurecer é, ao contrário do que propõe a bem sucedida experiência da Virada Cultural, um local nada simpático e extremamente perigoso.
Porém, é com este cenário deserto e sombrio como pano de fundo que jovens amantes da cultura underground, em especial o rap, costumam varar noites, especialmente as de sextas-feiras, contrariando notícias, desafiando estatísticas e ejetando fôlego e criatividade na noite paulistana.
O palco desta efervescente manifestação cultural fica na rua 7 de Abril, e atende pelo nome Executivo Bar. É dentro desta casa, que outrora já foi um prostíbulo (e o seu interior não engana o passado promíscuo do inferninho), que a cada quinze dias acontece a Rinha dos MC´s, liderada pelo Dj Dandan e pelo MC Criolo Doido.
A cada noite, entre quatro a seis MCs costumam batalhar pelo título de melhor da noite. Sob um palco improvisando, eles soltam o verbo em cima de batidas, provocam uns aos outros e arrancam risos, aplausos e vaias do público.
Ao final das apresentações (algumas pouco inspiradas, é verdade), a platéia escolhe o vencedor da batalha, e de quebra, é presenteada por um show de algum figurão do rap nacional para encerrar a noite.
A Rinha dos MC´s transpira criatividade e é sem dúvida um dos grandes redutos do rap paulistano. A festa já mudou de casa algumas vezes, mas é cravada no centro de São Paulo, onde está localizada agora, possibilitando o acesso de todos, que ela se torna democrática, inovadora e especial.
No final, o que se percebe é que a grande vencedora da Rinha é a música, em especial a música negra, reverenciada a cada bolacha que o Dj Dan Dan coloca pra tocar.
A Rinha é um evento engajado, antro de manifestações artísticas, palco de idéias, e de pessoas que as querem loucamente colocar em prática. Homens, mulheres (belas mulheres, por sinal), brancos, negros, amarelos, cafuzos e mamelucos, todos são bem vindos e convivem harmonicamente na casa, essa sim, de todas as casas.
Se a batalha do Rap paulistano era conquistar seu espaço, isso ele já conseguiu, e de sobra. Só não vê quem não quer.
domingo, 10 de maio de 2009
Era uma casa muito engraçada... Não tinha teto e era torta
Mas devo confessar que fiquei contente ao ver uma nota no site da Revista Simples, mencionando o suporte que recentemente utilizei para fazer um graffite. Trata-se de uma casa (torta) que fica no centro de São Paulo.
Abaixo, segue o texto da notícia, a foto da ditacuja e o link para a matéria original.

UM PAÍS PRA CHAMAR DE MEU

Filho de uma professora e de um militar, ambos descendentes de africanos e portugueses, nasci brasileiro na cor e no nome.
No mesmo ano que vim ao mundo, a seleção brasileira de futebol disputou a Copa da Espanha com uma das mais geniais equipes que o país já teve. Neste mesmo ano, a música brasileira perdeu o cantor, instrumentista e compositor Jackson do Pandeiro, conhecido como O Rei do Ritmo, que carregava no próprio nome a brasilidade do seu swingue, da sua cor e das suas músicas.
Foi também em 1982 que a talentosa cantora Elis Regina, branca por fora e negra por dentro, e uma das mais importantes intérpretes que o país já teve, nos deixou.
Todos estes importantes acontecimentos que sucederam o meu nascimento, além de outras centenas que vieram anos depois, entre eles o serviço militar, onde jurei defender a pátria, deveriam me estimular a ter orgulho de ser brasileiro, porém, 27 anos depois, não é este o sentimento que tenho hoje.
Pelo contrário. Estou desesperadamente à procura de um país pra chamar de meu. Não precisa ser um país de primeiro mundo, onde não existam moradores de rua ou onde a desigualdade social seja apenas um termo visto nos dicionários. Tão pouco quero um país sem sujeira nas ruas ou com políticos, pelo menos, honestos.
Meu real desejo é viver em um país onde seu verdadeiro passado seja reconhecido, valorizado e disseminado entre seus habitantes. Quero apenas poder acordar em um lugar que se orgulhe da sua história, e que a mesma, de preferência, seja de conhecimento de todos. Já que um país que ignora o seu passado, vive um falso presente e um futuro inserto, para não dizer nebuloso.
Essa procura repentina por uma nação para chamar de minha foi desencadeada na quinta-feira (07/05), quando ao foliar as páginas do caderno Cotidiano, da Folha de S. Paulo, uma notícia estampada no alto da página C3 me chamou (muito) a atenção.
O título da matéria era: “Governo financiará aula de cultura africana”. O texto dizia que o governo federal está com a intenção (já que a medida ainda não foi oficializada) de oferecer recursos extras a estados e municípios que se comprometerem a incluir no currículo escolar o tema da cultura e da história afro-brasileira.
Ainda de acordo com a matéria, o objetivo da medida é incentivar a adesão ao plano de implementação de uma lei de 2003, a número 10.639, que torna obrigatório nas redes de ensino o estudo da história africana e da participação dos negros na formação da sociedade brasileira.
A notícia, que mereceu relativo destaque no jornal, é triste e demonstra o quanto atrasado somos, e continuaremos a ser por longos e longos anos caso continuemos tentando diminuir a importância do negro na formação do Brasil.
O simples fato da União oferecer recursos extras para que estados e municípios incluam nas aulas do ensino fundamental e médio o óbvio da história do nosso país, ou seja, a verdade, é o mesmo que esconder da população a origem dos seus costumes, dos seus hábitos culturais, políticos e até mesmo geográficos.
Ignorar a importância histórica do negro na construção do nosso, ou melhor, do país, é preocupante, a tal ponto de me fazer repensar se realmente devo chamar este país de “meu”. Nunca pensei que chegaria a este ponto, mas tendo em vista tal descomprometimento, é o mínimo que posso fazer.
Ao mesmo tempo que a notícia evidencia a incompetência do Governo Federal, incapaz de se fazer cumprir uma lei, também revela o desinteresse de todo um modelo educacional (e político) com a verdade e com os fatos.
Essa descriminação histórica, aparentemente inofensiva, também é, indiretamente, a grande responsável por espalhar o racismo, por vezes invisível, entre os brasileiros.
Um país sem história e sem memória não é um país, é uma vítima.
Se a história dos meus antepassados e da minha família não é reconhecida, legitimada e tão pouco valorizada pelo país onde nasci, não posso, e não devo me identificar com ele.
Só quero um país pra chamar de meu!
terça-feira, 5 de maio de 2009
NOVA VELHA SURPRESA

O primeiro domingo do mês de maio, dia 3, nasceu como todos os domingos do ano deveriam ser, ensolarados, tranquilos e preguiçosos. Tal beleza, seguida por um gostoso e incomum silêncio matinal, parecia premeditar que algo especial estaria por vir.
Logo nas primeiras horas da manhã, o sol brilhou irradiante no céu da cidade de São Paulo, como se estivesse declamando um poema aos seus moradores. Um pouco mais em baixo do sol, sustentando os arranha-céus da selva de pedra, o asfalto fervia. Não somente pela intensidade da estrela, mas pelo calor humano.
Afinal, fazendo companhia para o sol, milhares de pessoas perambulavam pelo centro da capital durante as derradeiras horas da 5º edição da Virada Cultural.
No meio da multidão (formada em sua maioria por jovens), alguns exibiam uma disposição comunal, pulamndo, dançando, gritando, bebendo e se divertindo como se não houvesse amanhã. Outros, por sua vez, desfilavam um semblante cansado, denunciando a noite mal dormida.
Ainda no início da tarde, minutos antes do relógio marcar 15 horas, era possível obsevar uma multidão caminhando lentamente em direção a avenida São João, onde logo mais subiria ao palco o grupo Novos Baianos.
O aguardado retorno da trupe, diga-se de passagem, especialmente encomendado para o evento, não ganhou (espantosamente) por parte da grande mídia, o merecido destaque (nem antes nem após o show) e acabou sobreposto por nomes "mais populares" como Marcelo Camelo, Maria Rita, e até mesmo Wando.
Em cima do palco, como era de se esperar, o que se viu foi a verdadeira e original representação da música popular brasileira, influenciada pela percussão marcante do forró, do samba, do frevo, das marchinhas e os acordes do rock n´roll, do choro e da bossa nova. Na platéia, as pessoas, muitas delas emocionadas, cantavam e aplaudiam a histórica apresentação em meio a arranha-céus e performances acrobáticas de bailarinos voadores.
Canções como Tinindo Trincando, Ziriguidum, Brasil Pandeiro, Com Qualquer Dois Mil Réis, A Menina Dança, Besta É Tú e Preta Pretinha, foram cantadas em coro pela multidão, formada em sua maioria por jovens. Foi a coroação e o reconhecimento de um dos mais importantes grupos brasileiros em território paulistano.
Influenciados pela contracultura e pela Tropicália, Os Novos Baianos representam o anarquismo, a rebeldia e a liberdade de pensamento e atitude defendidos nos anos 70. Essas características fascinam os jovens hipongos e esquerdistas de hoje. Eles tem balanço, swingue, ao mesmo tempo que conseguem ser pesados e criativos. Representam uma fase de extremo fôlego da música brasileira.
Assim como o vinho, o grupo demonstrou que o tempo, um fardo para muitos, fez bem para o amadurecimento dos Novos Baianos, que apesar dos longos anos de estrada, continuam novos, encantadores e atuais como nunca.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
FCCB 70 YEARS OLD

“Viagem Pelo Tempo e Espaço em 18 Fotos”, é o título da exposição que abre o ano de comemorações em homenagem aos 70 anos de fundação do Foto Cine Clube Bandeirante, em São Paulo.
Com curadoria do fotógrafo e Diretor de Intercâmbio do FCCB, Raul Feitosa, a mostra reúne fotógrafos de 9 nacionalidades diferentes: Argentina, Áustria, Bélgica, França, Índia, Itália, ex-Tchecoslováquia, Turquia, e ex-União Soviética. Esta salada cultural resuta em particularidades interessantes de cada país.
Acho interessante a idéia do Clube, da associação, da entidade e de muitas outras iniciativas na qual a sociedade civil, através da coletividade, se articula por obejtivo. A experiência de compartilhar gostos e ideais em comum com pessoas diferentes é na maioria das vezes enriquecedora.
No FCCB tive, mais uma vez, essa oportunidade. Já que passei alguns meses por lá fazendo um curso de Fotografia, no início de 2008.
Éramos três na turma do professor Célio Costa. Lia, Felipe e eu.
Nas aulas, a sintonia. No Clube, o acolhimento. Saímos para fotografar, beber. Quando acabou o curso me associei ao Clube. Ora outra apareço por lá para treinar iluminação de estúdio.
Aprendi, e continuo aprendendo muito dentro daquele estudiozinho mirrado. Êta Augusta véia!
O FCCB fica na Rua Augusta, 1108.
INFO: 3214 4234 www.fotoclub. art.br
ps. Ainda não fui a exposição, mas sei da capacidade da curadoria do FCCB. Comentarei alguma coisa assim que ver a mostra.
O homem, a lata e a realidade das ruas. Compreender ou sentir?

Enquanto dirijo pela avenida Europa (sentido bairro), no luxuoso Jardim Europa, na Cidade de São Paulo, uma simpática moça de voz doce da Rádio Bandeirantes, anuncia a temperatura na capital: 18 ºC.
Mas a sensação térmica na região, em razão do ventinho sorrateiro que desde o final da tarde balança os galhos das árvores e os cabelos de quem transita pelas ruas da capital, faz a temperatura despencar para os 15 ºC.
Congestionamentos a parte, não demora muito e chego ao meu destino, o Mube (Museu Brasileiro da Escultura), que entre os dias 19 de março e 26 de abril abrigou a exposição “Grafite Fine Art”, que reuniu artista como Binho Ribeiro, Does, Dalata, Anjo, Graphis, o norte-americano Cern, Chivitz, Nove e Presto.
Lá, precisamente na Sala Burle Marx, pouco mais de 20 jovens aguardam o início do debate entre o empresário Baixo Ribeiro (dono da Galeria Choque Cultural), o grafiteiro Binho Ribeiro e o curador do Mube, Jacob Klintowitz.
Além da idade, que não ultrapassa a casa das três décadas, o público presente no evento reúne outra particularidade, o visual despojado, quase descompromissado, meio grunge por vezes meio sujo. Os meninos, maioria do público no local, vestem calças e camisas largas, os cabelos são propositadamente rebeldes e a postura nas poltronas é largada. As meninas, se por um lado são mais formais, por outro também são mais coloridas que os rapazes.
Por volta das 20h10, já acomodados nas confortáveis poltronas vermelhas da sala, o grupo aguarda o início do debate enquanto cochicham um assunto ou outro. Neste instante, a mediadora do evento, uma funcionária do Mube, sobe ao palco da sala e, enquanto as luzes da platéia vão diminuindo de intensidade, ela anuncia o início do debate. Neste momento sobem ao palco os “artistas” da noite.
Na pauta, arte urbana, sua produção e comercialização nos dias de hoje.
No centro da mesa, o empresário Baixo Ribeiro, que tem no público jovem (endinheirado) seu principal público alvo, defende a comercialização da arte urbana e a utilização de telas e de qualquer outro suporte capaz de tornar o produto comercializável. “Tenho prazer em ganhar dinheiro”, afirmou em certo momento da conversa.
Do lado esquerdo do empresário está Binho Ribeiro (dono de um traço conhecido dentro do universo do Grafitti), que defende a categoria e, como não poderia deixar de ser, encontra dificuldades em explicar o porque de se fazer, gratuitamente, desenhos espalhados pela cidade, assim como para explicar objetivo final da sua obra e a relação dos grafiteiros com os pixadores. A platéia, apesar de jovem, apresenta dificuldade em assimilar tais peculiaridades.
A efemeridade do grafitti, as invasões a Bienal e a Galeria Choque Cultural, a relação entre grafiteiros e pixadores, a lei Cidade Limpa, a comercialização do grafite, o limite entre o público e o privado foram alguns dos assuntos discutidos.
O debate foi acalorado, com intensa participação do público e dos palestrantes, detalhe este que poderia nos antecipar a dizer que o resultado do evento foi positivo, não é mesmo?
E foi, mas com algumas ressalvas, não direcionadas ao evento em si, mas pelo movimento que reúne milhares de jovens da cidade e que, mesmo assim, ainda continua sendo um tema áspero e de difícil assimilação para quem não vive, ou não viveu, a realidade das ruas.
O Grafitti e a pixação são movimentos que necessitam de uma aproximação das pessoas com a realidade para que as mesmas consigam ao menos entender os princípios básicos que movem a juventude pelas ruas da cidade: o respeito, o desapego à obra final, a produção coletiva, a transgressão, a ideologia urbana, a interação com as pessoas e, principalmente, o desejo de fazer arte pela própria arte. Ou seja, sem a preocupação de obter lucro, ou qualquer tipo de vantagem financeira ou material.
O Grafitti das ruas jamais poderá ser reproduzido em uma tela, ou mesmo em uma instalação dentro de uma Galeria ou Museu. O que observamos nesses lugares são obras que utilizam as técnicas do Grafitti, mas, que ainda seguem sem uma denominação definida.
Talvez ainda seja um pouco difícil para os verdadeiros artistas urbanos aceitarem esta mudança de ares, mas esta transformação simplesmente acompanha a evolução natural dos seres humanos, do mundo, e logo, da arte, e deve ser respeitada.
Independentemente do suporte utilizado, o grafitti, a pixação e arte urbana exposta em galerias e museus segue sendo difícil de ser compreendida pela sociedade, ainda bem, porque ela não deve ser entendida, e sim sentida.
“Tanto o Grafitti como a pixação são estilos de vida. Não somos grafiteiros uma vez por mês, ou duas vezes a cada semana. Somos todos os dias. Andamos para cima e para baixo olhando muros, portas e portões como um faminto vê um prato de comida”. Binho Ribeiro
quinta-feira, 23 de abril de 2009
... sou muito mais a riqueza cultural das ruas, com suas transgressões e fôlego contestador....

Porém, se na tela a vida é bela, na prática, a teoria se esfarela, formando um verdadeiro abismo entre o real e o conceito de ideal.
Na terça-feira (21), estive no MASP (Museu de Artes de São Paulo), para conferir a 17ª edição da Coleção Pirelli / MASP de Fotografia, e pude mais uma vez constatar esta disparidade.
Logo que cheguei ao Museu, por volta das 16h, notei uma intensa movimentação no famosos vão livre do Masp, enquanto uma pequena fila com cerca de 10 pessoas aguardava ansiosa a chegada dos elevadores que dão acesso a exposição. Lá em cima, homens, mulheres, jovens, adultos e idosos circulavam pelos corredores do museu, a maioria admirada com os belos registros da mostra.
Assim como grande parte das pessoas que ali estavam, também aproveitei a oportunidade da entrada gratuita (já que entre os dias 14 e 23 de abril o espaço ficou aberto para visitação com entrada franca em razão da montagem da próxima exposição que ocupará o segundo andar do MASP) para apreciar a famosa mostra fotográfica.
A arquitetura do Masp, sua disposição interna e externa, o acervo, as exposições, enfim, trata-se de um belo caldo de cultura ocidental que invariavelmente agrada seus visitantes. Ali dentro (o até mesmo ali fora) tudo é motivo para pensar, discutir, duvidar, questionar e admirar. Porém, este privilégio de ter mesmo que por poucas horas ou minutos os sentidos aguçados pela manifestação de um artista, é restrito.
E a explicação é simples, para visitar o Masp, uma das mais importantes instituições culturais brasileiras e autoproclamada sem fins lucrativos, o visitante deve desembolsar R$15. Sem choro nem vela. A não ser que role uma carteirinha de estudante e tal.
Este valor não só torna inviável a visitação de milhares de pessoas como também acaba por elitizar algo extremamente democrático e livre como são, ou pelo menos deveriam ser, os Museus e grande parte das produções artísticas. O cinema e o teatro padecem do mesmo mal ao esnobarem a renda média do trabalhador brasileiro, que por sua vez é cada vez mais estimulado a ficar em frente a uma televisão para consumir arte.
Uma vez ao ser questionada sobre o que pensava sobre os museus, a arquitetura modernista ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, responsável pelo projeto arquitetônico da sede do próprio Masp, disse: “Os museus novos devem abrir suas portas, deixar entrar o ar puro, a luz nova”.
Mas a profecia não vingou. Pelo contrário, afastou ainda mais a população dos Museus, principalmente os jovens, e conseqüentemente do questionamento.
Por isso, sou muito mais a riqueza cultural das ruas, com suas transgressões, fôlego contestador, livres, gratuitas e democráticas. Os Museus, bom, se esses ainda insistem em serem lugares conservadores onde intelectualóides desfilam seus abonados passos, é melhor que fiquem no passado mesmo.
domingo, 19 de abril de 2009
Católicos X Evangélicos: Bobinhos, pero no mucho!
A Associação Brasileira de Produtores de Discos apresentou na última semana um levantamento que aponta os padres Marcelo Rossi e Fábio de Mello (ambos representantes da igreja católica), como os campeões nacionais em vendagens de DVDs e CDs, respectivamente, no ano de 2008. Ou seja, sozinhos, os padres movimentaram milhões e milhões de reais dentro do mercado fonográfico brasileiro.A pesquisa é muito interessante, pois dá margem para diversas interpretações, uma delas é de que o sucesso da "indústria" evangélica, que a cada ano arrebanha milhares de seguidores no Brasil, fez acordar a adormecida ordem católica nacional.
Ninguém é santo mesmo!
Arquitetando riscos. O fim é só o começo.

Esse complexo entendimento do que é arte, e o que não é, também pode ser observado no Graffite e na Pixação, que ao meu ver representam hoje, a mais legítima expressão artística das grandes cidades, principalmente por serem livres, gratuitas e originais.
Muitos discordam, e não observam na Pixação uma arte. Não julgo como certo ou errado quem pensa assim. Porém, não podemos esconder o fato de que a Pixação consolidou-se como uma manifestação cultural autêntica e que, por isso, deve ser respeitada pelo número de adeptos e pela capacidade que possui em dialogar com toda uma geração.
Minha pretensão ao reunir esses dois campos das artes, a Arquitetura e a Arte de Rua, não é compará-las, e sim analisar o forte grau de proximidade que existe entre as duas áreas.
Assim como no Graffite e na Pixação, a Arquitetura, pelo menos nos grandes centros, é uma expressão artística cujo fim é na verdade o meio. Ou seja, trata-se de uma obra (quase sempre) inacabada, apta a receber novas intervenções, já que mesmo depois de (aparentemente) concluída, ainda é modificada ora pela ação do tempo (leia-se sol, chuva, ventos e etc.), ora pelo próprio homem.
Esta “interferência”, que pode ser natural ou premeditada, que por vezes agride e por outras valoriza o produto, é capaz de transformar a arte por completo. Pra melhor ou pior.
Rachaduras, pinceladas, ou simplesmente a deterioração fruto, por exemplo, de raios solares, são apenas algumas das ações capazes de transformar e agregar valor a um agrupado de concreto e, muitas vezes, a partir daí, transformá-lo em obra de arte. Essa possibilidade, contudo, na imensa maioria das vezes passa desapercebida pelo processo de produção dos arquitetos. Mas deve sim, ser analisada e discutida.
Na outra extremidade, temos um grupo (grande) por vezes mal quisto por parte da sociedade (graffiteiros e pixadores) que se apropria dessa produção como base para suas interferências.
Tenho pintado relativamente bastante nos últimos 6 meses, e também conversado com muitos artistas cujo ateliê é a rua. Tenho escutado cada vez mais a preocupação destes com o aspecto arquitetônico do local que será utilizado como alicerce principal da criação.
Essa categoria de artistas, que se destacam não só pela arte que produzem, mas também, pelo desapego ao material, possuem, igualmente aos arquitetos, produções que ao meu ver são de domínio público e por isso tornam-se alvo constante da intervenção do tempo e do homem.
A composição, tempo, arquitetura e intervenção urbana (seja para o bem ou para o mal), vem se completando nas grandes cidades modernas. Essa união de estilos e linhas artísticas, além de possibilitar um resultado especialmente singular e harmônico, multiplicam as alternativas de diálogo entre a obra e o púbico.
A paisagem urbana deve ser urbana, livre e disposta a dividir sua riqueza e existência com o mundo moderno.
Vivemos, ainda, um misto de eras da informação e da divulgação, responsáveis pela estréia do termo poluição visual que, na sua essência, nada mais é do que o diálogo de duas expressões artísticas livres, fincadas no mundo contemporâneo, e que ao invés de simplesmente serem contestadas, devem ser entendidas como parte do processo evolutivo do cidadão, que há séculos, seja nas cavernas artesanais ou fora delas, já começava a dar as primeiras pinceladas na parede.
O desapego deve prevalecer nessa hora.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
CHE, A ARTE NÃO IMITA A VIDA

Será que vemos, ouvimos e lemos o que somos? Ou seja, que os meios nada mais fazem do que tentar interpretar e refletir as ações da sociedade? Talvez. Pra mim, por mais que digam que a vida imite a arte, é quando a arte imita a vida, que podemos ter a dimensão de quão complexa é a trajetória dos seres humanos na terra.
Adaptar uma vida, principalmente as saboreadas intensamente, repleta de emoções, tristezas, glórias, conquistas e batalhas, e um filme, um livro ou qualquer que seja a estrutura utilizada, é difícil, ou melhor, muito difícil. Somente os talentosos conseguem tal proeza.
E isso é natural. Não falo apenas da vida de pessoas famosas, que por suas trajetórias alcançaram o reconhecimento público. Pessoas normais, com as quais cruzamos freqüentemente em nosso cotidiano, muitas vezes possuem peculiaridades dignas de um roteiro de cinema. Tenho conhecidos, alguns amigos inclusive, que, caso tivessem que resumir suas histórias em um filme, teriam suas realizações infinitamente reduzidas, já que uma ou duas horas seriam infinitamente incapazes de reproduzir suas histórias.
No recém lançado "El Argentino", que no Brasil ganhou o nome de "Che", a primeira de duas histórias que pretendem mostrar a vida do revolucionário Ernesto Che Guevara, o diretor americano Steven Soderbergh, esbarra neste problema. Tem nas mãos um produto extremamente rico, mas justamente em razão deste excesso de virtuosidade do personagem, Soderbergh acaba sendo engolido pela história de Che. Conclusão: Não consegue retratar nas telas a vida do polêmico guerrilheiro. Não é documental e tão pouco ficcional, fica em cima do muro, apresentando muito do que já sabemos.
Revolucionário, aventureiro, médico, fotógrafo, humano, Che tem sua vida de conquistas, batalhas e idealismo minimizada ao extremo no filme.
Apesar da boa atuação do ator porto-riquenho Benicio del Toro, que interpreta o guerrilheiro argentino, o filme peca em não conseguir, como já era de se esperar, contar a trajetória desta que foi uma das mais importantes figuras do século XX em todo o planeta.
Mas à de se dar um desconto. Afinal, como reproduzir a vida de um cara que ainda na sua juventude resolveu conhecer a América Latina em cima de uma moto, que durante essas viagens conheceu povoações indígenas, leprosários e interagiu com essa população, especialmente com os mais humildes, estudou medicina, foi repórter fotográfico, acompanhou in loco o surgimento do líder e amigo de Fidel Castro e que conquistou um país no braço?
Fui ao cinema com a expectativa de ver o que já havia lido em alguns livros e revistas, me decepcionei, não apenas pela qualidade do filme, mas principalmente por querer ver ali, na telona, o que só é possível de ser vivenciado.
A vida, na prática, com suas glórias e derrotas, é muito mais interessante. A arte não imita a vida, por mais que tente copiá-la.
domingo, 5 de abril de 2009
Ponto pro Hood

O cenário, o campo do Centro Desportivo e Comunitário (CDC) da Vila Arapuá, na Zona Sul da capital. Quebrada do graffitero Pifo e do rapper Rappin Hood.
Apesar de ficar um pouco escondido, próximo a divisa do Ipiranga com São Caetano do Sul, o campo da Vila Arapuá é bem famoso. Por lá costumam desfilar craques das antigas que reúnem-se para partidas de futebol regadas a muita carne, cerveja e pagode.
Não é difícil aparecer no CDC, principalmente nas manhãs de sábado e domingo, e dar de frente com o Rappin Hood. Nascido e criado no bairro, ele tem uma afinidade muito grande com o Clube
E neste sábado não foi diferente, quer dizer, a não ser pelo horário, já que o Hood apareceu por volta das 14h, logo depois que meu jogo acabou. Bastante querido naquela que é realmente a sua casa, Hood chegou, comprimentou todos e ficou próximo ao bar conversando com alguns amigos, entre eles eu.
Lá pelas tantas, durante nosso papo, já envoltos por uma aconchegante cortina de fumaça, Hood falou sobre sua saída do programa Manos e Mina: “Pó Nabor, vazei mano. Os caras quiserem impor uma parada. E pra mim isso não rola. Nos reunimos, eles falaram, eu escutei, depois que acabaram de falar, sai da sala e pedi as contas”, disse, resumidamente.
Na verdade, o que rolou foi que eles (cúpula da emissora) queriam dar uma cara mais branca para o programa, pelo menos nas palavras de Hood. Fazendo algumas alterações na formação da platéia, hoje composta por membros de ONGs, colégios municipais e representantes da periferia paulistana, comunidades e na programação de convidados. “Eles queriam trazer o Curumim, o Sepultura. Nada contra os caras. Respeito todos. Mas entra na favela e pergunta quem tem o CD do Curumim ou do Sepultura, vão aparecer meia dúzia. O público do programa é outro”, falou.
Para meu espanto, no domingo, ao pegar a Folha de São Paulo, uma nota dava a versão da TV Cultura para saída. Segundo a emissora, que escolheu o rapper Thayde para substituir o antigo apresentador, Hood saiu por não querer entrevistar o talentoso Curumim.
Após ouvir o Hood, acabei concordando com sua postura do tipo: “Ou é, ou não é”. Afinal, quem vai dar a cara a tapa, é ele, quem apresenta o programa é ele, e quem faz o role nas quebradas e recebe milhares de CDs, pedindo uma força, também é ele.
O Sepultura, o Curumim, assim como outros grupos e artistas que não transitam pelo rap, nem pelo samba, ou outro ritmo mais presente nas periferias brasileiras, possuem outros espaços na mídia, tanto na TV como no rádio, nas revistas e jornais, e não precisam do Manos e Minas para terem suas imagens divulgadas.
O Manos e Minas nasceu com o propósito de divulgar a cultura Hip Hop (Rap, Break, Graffitti e DJ) e também dar uma força para manifestações culturais presentes na periferia. Por isso, ao ver que a imposição da diretoria da TV estava se sobrepondo ao que fora combinado, Hood resolveu pedir as contas.
Muitos teriam outra atitude. Hood, que já chegou a ver estremecida sua relação com a favela que o despontou para a fama, o Heliópolis, agiu pelo certo e foi coerente com sua trajetória. A primeira vista, colocou o ideal à frente do bem material.
Ponto pra ele. Que o Thayde, pela história que possui, tenha mais sorte, não queime a coletividade alcançada até aqui, e que também não se deixe “vender” pelas imposições da TV Cultura, que apesar de ter a melhor programação da TV aberta brasileira, desta vez decepcionou.
O Manos e Minas foi uma importante conquista da juventude negra paulistana, em especial dos apreciadores da cultura Hip Hop. Que os meios não justifique os fins, e que as glórias alcançadas com o programa sejam divididas a quem de direito.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
ALMA NO CONCRETO. FALEM O QUE QUISER FALAR
Conheci o Graffitti em 1994, aos 13 anos, quando estava na 6º série. Na época, ainda não tínhamos esse volume de produção que vemos hoje. O Victor, um amigo da sala, que anos mais tarde viria a se tornar um artista linha de frente, que transpõe a qualificação de “Artista Plástico”. Já que transita com muita qualidade por esculturas, toys, arte digital e graffitis, foi o cara responsável por me apresentar este mundo de cores, texturas, idéias e aventuras.A iniciação nos muros, porém, veio com a pichação, com direito a muito vandalismo, adrenalina, perigo e histórias pra contar. Meses depois, eu estava acompanhando aquele alemãozinho, já mestre nos desenhos, em alguns graffitis pela cidade.
Influenciado pelos seus traços, não demorou muito e comecei a fazer os meus rabiscos também. No início, escrevia o nome da minha turma de role: CHIK´S. Muitas vezes fazíamos um único desenho em três, quatro pessoas. Ou seja, muito cacique pra pouco índio.
Assim, resolvi fazer meu próprio trampo. Foram no máximo dez roles, assinava meu nome NABOR, com letras gordas, preenchidas de látex, e os detalhes eram em spray. A maioria em preto e branco. Mas naquele momento, com o sangue adolescente correndo na veias, minhas atenções estavam voltadas para a pichação.
As saídas de madrugada, o coração batendo a mil, a fuga, a conquista o pavil. Era o que eu queria, não só eu, como milhares de outros jovens da minha idade. Era o início da segunda metade dos anos 90 e a pichação comia solta em São Paulo.
Os problemas com a polícia me fizeram recuar. Continuei desenhando muito em casa, fazendo letras, personagens, mas tive que abandonar os muros.
Apesar de relativamente curto, já que foram pouco mais de três anos de produção urbana, este primeiro contato com que eu considero ser a base da arte de rua, bastou para que anos depois minha relação com as artes fosse extremamente próxima.
Mas foi recentemente, por volta de dois anos, quando retomei aos valores culturais adquiridos no início da minha adolescência, que redescobri o Graffitti. Convencido por amigos, voltei as ruas (ainda bem!).
Vi que a produção, a pesquisa, a criatividade, o suor, o engajamento, a beleza, a diversidade e, principalmente, as relações que acompanham o graffiteiro, vão muito além dos muros. É um estilo de vida. É a arte propriamente dita!
Falem o que quiser falar....é a alma no contreto que ta lá.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Se piorar, estraga!

Pois nesta quarta-feira (1º), o jornal dispensou todo um editorial para, mais uma vez, expor sua opinião com relação ao assunto. Segundo o jornal, “a obrigatoriedade do diploma afronta a liberdade de expressão, diminui a oferta de informação de qualidade e se reveste de anacronismo na era da Internet, quando todos tem oportunidade de apurar e publicar notícias”.
Se já vivemos um período onde as umbigadas (notícias furadas) tornaram-se cada vez mais freqüentes, onde a qualidade e a veracidade da informação estão mais escassas, o que se dirá se qualquer pessoa resolver abrir um jornal (ou se contratado por um) e fazer (escrever) o que bem entender.
Jornais, revistas, telejornais e demais veículos de comunicação são formadores de opinião e muitas vezes pautam toda uma sociedade. Então, como um leigo pode ser autorizado a transmitir uma notícia que pode acabar com uma carreira ou mesmo estimular uma guerra?
Não duvido da qualidade técnica de médicos, artistas plásticos, advogados e demais profissionais em apurar uma informação e redigir um bom texto. Contudo, o que fazer com os milhares de jornalistas formados espalhados pelo país. Será que estes terão seu espaço? Qual o futuro destes profissionais? Será que irão se aventurar (mesmo sem diploma) em salas de cirurgia ou em tribunais?
E o cidadão, ficará a mercê de notícias sem credibilidade alguma? Em quem irão acreditar?
A Folha tem por característica contratar profissionais especializados (engenheiros, atletas, cozinheiros, e etc.) para fazer determinadas matérias. No caderno Ilustrada, por exemplo, a participação de não jornalistas é muito comum. Por vezes a interferência é magnífica, em outras, deplorável.
Ao meu entender, o diploma, mais do que qualificar (por mais que seja duvidosa a qualidade dos cursos de jornalismo Brasil a fora), é uma maneira de cobrar, regulamentar e fiscalizar os jornalistas.
Com a chegada da Internet, principalmente com o advento dos blogs e das listas de discussão, pessoas que desejam escrever, investigar e apurar e que não possuem um veículo físico para tal, possuem um amplo espaço para dialogar com a sociedade. Para mim, são estes os locais onde os não jornalistas, ou melhor, os não diplomados, devem se aventurar.
Rádio, TV, jornal, revista e sites de notícias, são espaços para jornalistas.
Cada um no seu quadrado. Porque se piorar, estraga!
Talese, tá easy, tá loco! O Contador de notícias.

Durante minhas aulas no curso de jornalismo na Universidade Metodista de São Paulo, uma coisa que me marcou muito, além das amizades construídas, das cervejas entornadas e das belas mocinhas que conheci, foi ser apresentado a um gênero jornalístico até então totalmente desconhecido para mim, o “New Journalism” (gênero que mistura narrativa literária e técnica jornalística).
Foi como achar a tampa da panela, já que por mais esforço que fizesse, meus mais miúdos textos (ou melhor, histórias) não tinham menos de uma lauda. Aliás, fui muito repreendido por esta característica, não só durante as aulas como principalmente nos primeiros estágios que fiz.
Porém, noticiar acontecimentos desestruturando a fórmula norte-americana do Quem, Quando, Onde, Como e Porque, nunca foi uma exclusividade. Milhares de aspirantes a jornalistas (ou mesmo jornalista profissionais) cultivam essa peculiaridade.
Narizes de cera a parte, foi nesta época estudantil e de efervescentes descobertas jornalísticas e literárias, que conheci a obra do jornalista e escritor Gay Talese, considerado o pai do New Journalism.
Li e re-li seus textos (às vezes forçadamente), e mais do que passar a compreender as mil e uma facetas do jornalismo, me identifiquei muito com seu modo de produção. Talese me apresentou as delícias das grandes reportagens.
Inovador, detalhista e emocionante, sem ser maçante, os textos de Gay Talese, que misturam jornalismo e literatura foram fundamentais para o meu auto-conhecimento como jornalista.
Por isso, foi com satisfação que recebi na manhã de quarta-feira (1º), a notícia de que Talese confirmou sua presença na Sétima edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP, que acontecerá entre os dias 1º e 5 de julho.
É uma honra para nós brasileiros, especialmente jornalistas, termos a oportunidade de ouvir, quem sabe até trocar uma idéia, com um cara desse gabarito.
+ INFO:
www.pt.wikipedia.org/wiki/Gay_Talese
segunda-feira, 23 de março de 2009
Racismo não existe!

Tema pra lá de debatido, torcido e remoído, por isso, não vou aqui decorrer sobre o assunto. Porém, como Negro que sou, acho legal não me abster da oportunidade de me pronunciar.
Para isso, vou penas “reconstruir” a famosa frase de um (dos milhões) de negros (pessoas mais afetadas com a descriminação racial) que tiveram êxito em suas caminhadas. Falo de Bob Marley, que dispensa comentários, seja por seu talento, inteligência ou engajamento, e que uma vez disse: “Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos haverá guerra”.
Sábia colocação. Perfeita para ser discutida e lembrada no dia 21 de Março.
Contudo, sem pedir licença ao “Rei do Reggae”, eu diria mais: Enquanto a cor da pele, a condição social, a opção religiosa, sexual e intelectual do indivíduo for mais importante que o brilho dos seus olhos, haverá guerra e desconforto.
Pessoas passando fome, tragédias naturais acontecendo a rodo e ainda temos que ver nossos irmãos se desgastando com a promoção da igualdade racial ao redor do mundo? Será que realmente estamos no século XXI?
É uma pena, mas parcela da sociedade ainda continua tratando com descrédito, indiferença e inferioridade as pessoas não brancas.
Lógico que não me refiro ao povo brasileiro, afinal, no Brasil, onde “Preto e Dinheiro” são palavras rivais, racismo não existe.
Tudo acontece para a nossa segurança.
Agora deixa eu ir, que amanhã é dia de branco!
quarta-feira, 18 de março de 2009
Exposição virtual: “Ali estava certo. Boxe à paulista”
Brutal plástica de movimentos.
Ginga de serpente,
Reflexos aguçados,
Olho no olho e mal encarado
Fúria em mente.
Branco, Preto, Índio, Miscigenado
Coragem, Medo, Concentração e os dedos enfaixados
Suor, técnica, raiva e exaustão
Pulos, gritos, gemidos ardidos e um dente caído no chão
De peito aberto caminha o desconhecido
Calção, meião e pose de bandido
Dança, balança, deita e rola
Esquiva, ataca, defende e vai as cordas
Glória, Derrota
Mocinho ou Vilão
Um beija o ringue
O outro ergue a mão




quinta-feira, 12 de março de 2009
Africa Unite

O longa é baseado no livro “Playing the Enemy”, de John Curlin, que conta como Mandela, em 1995, já presidente da África do Sul, usou a Copa de Mundo de rúgbi para quebrar barreiras raciais e unir o país em torno da equipe nacional.
Achei fantástica a notícia. Apesar das inúmeras honrarias já recebidas por Mandela e mesmo que por trás desta filmagem possa estar o oportunismo da recente eleição do Barack Obama, a força do cinema norte-americano pode, e deve, conceder uma justa homenagem a um dos maiores líderes negros de todos os tempos.
A importância de Nelson Mandela (apesar do tardio reconhecimento) na unificação da África do Sul é incontestável. Sua trajetória de luta contra o Apartheid, que resultou em 27 anos de prisão, é um exemplo de que, apesar de forças contrárias, devemos seguir nossos ideais e correr atrás dos nossos sonhos.
O mundo, principalmente o Brasil, carece de um líder negro como Mandela.
+ INFO
terça-feira, 10 de março de 2009
Mulher Elétrica

Um dia para exaltar a presença feminina no mundo é muito pouco. Todos os dias são delas e, na maioria das vezes, para elas. Por isso, a data, a primeira vista, por ser um dia aparentemente como os ouros, assim como dezenas de comemorações do nosso calendário, soa banal. Mas não é.
Considero a data importante justamente por reavivar os questionamentos sobre o papel e as condições da Mulher na sociedade contemporânea (por mais que durante os outros 364 dias do ano pouca coisa mude).
Ao meu ver, porém, a discussão não envolve apenas a conscientização e a modernização de pensamento dos homens, mas, principalmente, a posição e as ambições das próprias mulheres. Hoje, salvo engano, maioria no planeta.
Admiro, respeito e acho inquestionáveis as conquistas das mulheres. A beleza, sensibilidade, graça, força e outras milhares de qualidades as credenciam a ter muito mais do que possuem hoje.
Mas a mulher, como disse Mano Brown, é “Elétrica”, e ainda verá sua importância ser reconhecida.
segunda-feira, 9 de março de 2009
Rabiscando sem crISE

Os termômetros de São Paulo estavam batendo na casa dos 30 ºC. A galeria estava com sua movimentação comum. Algumas pessoas dentro das lojas e outras dezenas circulando pelos corredores do prédio.
Logo que cheguei, imediatamente desci a famosa rampa em direção ao subsolo da galeria, local onde concentram-se as lojas de artigos de hip hop, cabeleireiros afro e afins. Meu destino? A Grapixo, primeira loja da cidade destinada exclusivamente a comercializar artigos para grafiteiros e pixadores.
Ao contrário das outras dezenas de vezes que fui à loja, desta vez, minha intenção não era ver as publicações gringas de graffiti e tão pouco comprar latas de spray. Meu objetivo naquela tarde era trocar uma idéia com o ISE, a.k.a do paulistano Cláudio Duarte, dono da loja e um dos grafiteiros com maior role na cidade.
Enquanto caroçava o vendedor da loja e observava algumas camisetas, meu entrevistado chegou. Apesar de atarefado com fornecedores e com o andamento da loja, ele não hesitou em tirar alguns minutos da sua tarde para trocarmos uma idéia.
Óculos de grau, barba por fazer, bermudão e camiseta da Grapixo, Cláudio, como era de se imaginar, mostrou-se um cara com uma visão e, principalmente, opiniões, bem sólidas do que o grafite representa na sua vida.
Modesto, rejeitou o rótulo de o Zé (Lixo Mania) do graffiti paulistano. “Vixi, to bem longe dele. O Zé é ô concour”, disse.
Nascido no berço do grafite brasileiro, o bairro do Cambuci, região que despontou para o cenário nacional com o surgimento do Os Gêmeos, mas também de onde saíram nomes como Nunca, o próprio ISE, e mais recentemente o Finok e o Coyo, ISE encontrou no grafite o motivo para a sua existência, afinal, graças a ele, fez amigos, conheceu amigos e, mesmo que sem querer, despertou sua veia artística e comercial.
Sentado no chão, com uma bic e um papel sulfite na mão, e improvisando uma caixa de tênis como apoio para escrever, troquei uma rápida idéia com o cara cujo nome está estampando em mais de mil lugares da cidade. Isso por que ele só pinta de domingo.
Confira como foi.
NOME
Cláudio Duarte
IDADE
30 anos
A.K.A
ISE
PORQUE ISE
Na verdade quis fazer uma brincadeira com a palavra Easy, que significa fácil em português, mas quis fazer da maneira como as pessoas que não sabem inglês falam.
ROLÊS
Só pinto de domingo
INÍCIO
Comecei em 1992. Sou do bairro do Cambuci, e lá, nos anos 80 e 90, nós tínhamos uma cena de Hip Hop muito forte, principalmente no break e no graffti. Tive uma identificação maior com o graffiti, muito em razão de uma galera do bairro que fazia o role, como o Mancão e Os Gêmeos.
CAMBUCI
O Cambuci é meio que uma fábrica de grafiteiros, de lá saíram, primeiramente, nomes como o Marcão, Os Gêmeos, depois veio a geração seguinte comigo, o Nunca, e agora tem o Finok e o Coyo. O bairro é uma verdadeira galeria a céu aberto.
SEU TRAMPO
Não considero meu trampo um Bomb, já que ele não é tão simples, tem mais cores e envolve um pouco de técnicas de stencil também. Estava conversando com o Finok outro dia e chegamos à conclusão que aqui em São Paulo, nós, grafiteiros, desenvolvemos uma nova forma de pintar, que é difícil de rotular. Prefiro dizer que faço um rolê.
O GRAFITE
Pra mim a essência do graffiti é a rua. Algumas pessoas do movimento, principalmente as mais jovens, primeiro tem o contato com as telas e as galerias para depois, talvez, ir para a rua. Não descrimino essas pessoas, apenas acho que elas tem uma outra leitura do que é o Graffiti. Mas para mim, se saiu da rua já não é mais graffiti. Quando faço algum tipo de trampo particular, tipo uma decoração, costumo dizer que utilizo as técnicas do graffiti, mas que não estou fazendo um graffiti propriamente dito, justamente porque não estou na rua.
PIXAÇÃO
Acho a pixação um movimento muito foda e original.
SÃO PAULO VERSUS OUTRAS CAPITAIS
Graças ao Graffiti tive a oportunidade de conhecer vários países e várias capitais importantes na cena de graffiti, e São Paulo não deixa a desejar para nenhuma delas, na verdade supera muitas.
ISE PIXADOR
Na pixação tenho apenas amigos. Como meu primeiro contato foi com o graffiti, e foi muito forte, nunca tive muito interesse em pixar.
GRAPIXO
Minha intenção com a loja foi proporcionar a galera que pinta ter acesso a produtos de qualidade. Tínhamos muita dificuldade para conseguir determinadas tintas e spray, na verdade ainda temos essa dificuldade. A oferta dessas materiais ainda é muito pequena.
COM OU SEM AUTORIZAÇÃO
Graffiti para mim é pintar com ou sem autorização. Intervir em um espaço na rua com ou sem autorização.
POLÍCIA
Já rodei algumas vezes, mas os anos de rua me fizeram criar defesas contra isso e a me safar com sucesso e não ter maiores problemas. Mesmo por que São Paulo tem problemas maiores que graffiti para polícia cuidar.
MOTIVAÇÃO PARA PINTAR
A rua, as pessoas, meus amigos. Graffiti para mim é como meu sangue, corre em minhas veias. Enquanto eu estiver vivo quero poder fazer esse sangue circular no meu corpo.
REFERÊNCIAS
Tudo que vivo vira referencia no meu trabalho. Se vivo coisas boas pinto coisas boas, se vivo coisas ruins, filtro as que me podem fazer bem e as uso também. Pessoas como referencia tenho vários, mas meus amigos são as maiores.
GRAFITEIROS X PIXADORES
Acho que não se precisa dizer mais nada sobre isso. A mídia fez esse assunto ter fundamento. As pessoas que pintam rua de verdade não ligam pra isso.
QUANTIDADE X QUALIDADE
Claro todos os artistas que pintam graffiti querem ver seu trabalho evoluir. Já me preocupei menos com a estética e mais com a quantidade, mas hoje vivo uma fase diferente, quero fazer muitos e com mais qualidade. Aprendi em uma viagem que fiz ao nordeste que as pessoas merecem ter muito de quem pinta na rua. Por isso, se quer fazer na rua, faça o melhor que puder, pois eles (as pessoas) não merecem ver coisas ruins. Merecem o melhor de cada um de nos que intervimos nos meios públicos.
CRITÉRIOS PARA PINTAR
Hoje faço uma junção de foto e parede. Só pinto onde posso ter uma linda foto.
BOM DO GRAFFITI
amigos verdadeiros
RUIM DO GRAFFITI
Ficar doente por tanto respirar tinta. Já passei por isso umas três vezes. Foi foda.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Valeu! Boa sorte no corre e fica com deus.
+ INFO
http://www.grapixo.blogspot.com/
sábado, 28 de fevereiro de 2009
B. Negão em 3 tempos (Conciso, Sem futuro e Feliz pra Caralho)
Trombei o Bernardo Negão durante a apresentação do Turbo Trio, no Studio SP, na festa encabeçada pelo Daniel Ganjaman. Antes do pancadão rolar, o músico, bastante assediado, respondeu a três perguntas.
Não penso. Deixa rolar.
Turbo Trio
Entre o final deste ano (2009) e o começo de 2010 vamos lançar o disco do Turbo Trio.
Seletores de Freqüência
A previsão é que o novo CD do Seletores de Freqüência seja lançado em julho deste ano.
O CHÁ QUE É BOM! (Carnaval na contra mão - Sem Sombra de Dúvida)
Era um domingo, dia do (segundo) lançamento do primeiro trabalho solo do artista, intitulado “Sem Sombra de Dúvida”. Na mesma noite, também ocorreria a gravação do vídeo-clipe da música “Mano eu vou ali comprar um chá”.
Para um domingo de carnaval, a casa estava cheia, inclusive de mulheres, cena, aliás, que venho reparando em outras festas de Rap também, e que demonstra que foi-se o tempo em que o Hip Hop era coisa de homem, de mano.
Já tinha visto a força da sua performance há mais de um ano, no abafado Hole Club. Conhecia um pouco da sua caminhada no SNJ (Somos Nós a Justiça), dos seus projetos mais recentes e sabia que não ia iniciar uma idéia com qualquer mané.
Jorge Antônio Andrade
33 anos
Não sou casado no papel, mas moro junto com a minha mulher e me considero casado sim.
1 filho
15 anos de carreira, mas escuto o som desde 1993.
Fiquei 8 anos com os caras. Foi muito loco, um puta aprendizado. Só tenho a agradecer pelo período que fizemos um som juntos.
Ta sendo muito boa. Hoje por exemplo, um domingo de carnaval, o pessoal podia ta por aí escutando umas marchinhas, curtindo a folia, mas não, a rapaziada venho escutar um rap e curtir o meu show. Isso é muito firmeza.
A inclusão digital é fundamental nos dias de hoje para expandir o trampo do artista. Assim as pessoas podem ter acesso a muitas coisas, inclusive informações sobre a vida do artista, pode escutar as músicas que gosta e tal. Acho muito importante esta ferramenta.
Desde a primeira letra que escrevi “Ele Está no Mundo da Lua”, sempre quis fazer um trampo solo. E não por querer estar no controle de tudo, mesmo porque nunca estamos no controle de tudo. Era um sonho que sempre tive e que estou realizando.
A captação de voz foi feita no estúdio Operante, do QAP, do SP Funk. A mixagem é dele também. A faixa 2 teve a captação de voz feita no Ateliê Estúdio, com produção do Kl Jay. O Gilmar de Andrade, meu irmão, o Richard e o Sonar, da França, também participaram da produção do disco.
QUE HISTÓRIA É ESSA DE IR COMPRAR UM CHÁ
Então mano, na realidade a letra dessa música tem um duplo sentido. É lógico que a maioria das pessoas sabe a qual chá me refiro (rs). Mas, ao mesmo tempo, pode ser um chá de erva cidreira, de hortelã, aí fica a cargo da imaginação de quem escutar o som.
Agora, com a Assessoria de Imprensa correndo junto, a idéia é chegar mais próximo do grande público. Fazer mais shows, tocar em grandes casas.
O ruim é que o Rap ainda não recebeu por parte da sociedade o reconhecimento que merece. Ainda não estamos nos grandes veículos de comunicação e nem nas grandes casa de show. E isso é ruim.
O bom é que as novas caras que estão surgindo continuam na caminhada dos mais antigos, representando o Rap e divulgando o som.
Sim, mas não é fácil. Toda correria acontece de maneira independente, desde fechar shows, entrevistas, até colocar o CD na rua.
Quando era mais novo, em Guarulhos, eu andava pra cima e pra baixo com o Fuminho e o Tié. Daí teve um mano que falou que eu parecia a sombra do Fuminho, porque a gente tava sempre junto no role. O apelido pegou e eu acabei incorporando ele na minha caminhada.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Aprendam a fazer perguntas!

De calça jeans, meias listradas e camisa pólo bege, o simpático senhor subiu ao palco do teatro do SESC Ipiranga na noite de quarta-feira (18/02) para mais uma rodada de bate-papo. Na platéia, cerca de 30 pessoas esperavam ansiosas para ouvir as suas palavras.
Logo que sentou-se na cadeira, tomou um gole de água a começou a disparar detalhes sobre a vida e a obra da cantora e atriz Carmen Miranda. Personagem de rara importância para o desenvolvimento do cenário artístico nacional e motivo ao qual ele fora convidado para estar ali.
A pessoa em questão é o jornalista e biógrafo Ruy Castro, um dos mais respeitados escritores da atualidade. Autor das biografias de Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda, está lançada a cinco anos, Ruy foi convidado pelo SESC para falar um pouco sobre o livro, já que este ano algumas dezenas de eventos e homenagens a rainha dos balangãndas serão realizados no país.
6 ponto 8. Enxuto!

Lógico, com a influência de um amigo aqui, um tio acolá.
O Forró foi uma delas. Em pouco tempo, graças a algumas influências que tive logo após ingressar na faculdade, minhas incursões por discografias de nomes como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Humberto Teixeira, Gordurinha, João do Vale e Trio Nordestino, acompanhadas de festas regadas a muito xote, baião, xiboquinha e mulher bonita, tornaram-se mais freqüentes e me fizeram apreciar (e muito) o ritmo. Quando me dei conta estava em cima de um palco, abraçado por uma zabumba e tocando sucessos do cancioneiro nordestino.
Devo admitir que, apesar dos milhares de quilômetros de distancia do nordeste brasileiro, me apaixonei pela sintonia sonora entre a sanfona, o triângulo e a zabumba (a essência do Forró Pé de Serra), e a riqueza das letras que descrevem o cotidiano nordestino.
Foi o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, antes mesmo do som fulminante do mangbeat de Chico Sciense, quem me abriu os olhos para a música regional brasileira, especialmente a nordestina.
No começo deste ano, já afastado alguns meses das umbigadas, resolvi, acompanhado por alguns amigos, dar as caras no Forró Secreto, festa quinzenal que acontece na Aldeia Turiassu, em Perdizes.
Para entrar no salão é necessário que os interessados sejam previamente convidados. Ou seja, apenas entram pessoas que tenham o nome na bendita lista. Daí o nome Forró Secreto.
Porém, de secreta a balada não tem nada, afinal, os anos se passaram, muitos já a conhecem e sabem das artimanhas para participar da umbigada chique.
Já fui algumas vezes na festa. Atualmente acredito que seja a melhor festa de forró da capital. Gente bonita, local agradável e bons trios fazem do Secreto uma festa animada e charmosa.
Na quinta-feira (05/02), quem deu as caras na festa foi o velho e bom José Domingos de Morais, o Dominguinhos, que aproveitou passagem pela Aldeia Turiassu para iniciar as comemorações do seu 68º aniversário, oficialmente comemorado no dia 12, no Canto da Ema.
Acompanhado de um zabumbeiro, um baixista, um trianguleiro e do amigo pandeirista Fúba de Taperoá, Dominguinhos deitou e rolou no palco da Aldeia Turiassu. Sentado em uma cadeira simples, como aquelas de cozinha e com a tradicional boina escondendo o ralo cabelo, Dominguinhos deu uma aula de forró, cantou seus grandes sucessos e mostrou, mais uma vez, porque é tão requisitado pelos melhores músicos do país.
Sua sanfoninha de 120 baixos gritou alto e fez todo o salão sacudir.
Suas músicas, sua voz nordestina, o swingue do seu show, enfim, tudo no artista tem melodia. Sua performance se assemelha a apresentação de um bom trio, contudo, com mais requinte.
Sujeito de hábitos simples e dono de uma brilhante trajetória dentro da música popular brasileira, Dominguinhos cantou e tocou por quase duas horas.
Discípulo de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, meio branco, meio negro, meio índio, sem dúvida já escreveu o seu nome no hall dos grandes músicos brasileiros. Extremamente versátil, além do forró, perambula com facilidade por ritmos como blues e o jazz. Enfim, gostei do que vi, ouvi e curti.
Como dizia Luiz Gonzaga, Dominguinhos tá enxuto!
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Pra não dizer que não falei das flores

Bom, toda essa baboseira é apenas para lhes comunicar que, alguns assuntos (realmente especiais e que de uma maneira ou outra estão inseridos no contexto desta pagina) que não apenas os relacionados aos culturais, indies e undergrounds (carro chefe desse blog) a partir de hoje, também serão comentados descaradamente por aqui.
Obrigado por ampliar meus horizontes Agnaldo Timóteo.
A linha editorial será mantida, novidades estão por vir.
Porque no te calas!? (Sagaz homem fumaça)

A nota começava dizendo que na final da última semana, o vereador Agnaldo Timóteo (PR-SP), acusou os colegas da Câmara Municipal de racismo, ao defender a aprovação das contas da administração de Celso Pitta (PTB-SP), quando este ocupou a cadeira de Prefeito de São Paulo.
De acordo com o texto, mo Plenário da Câmara, ao ver que era um dos poucos que votaram a favor do ex-prefeito, Timóteo foi à tribuna e disparou: "Enquanto o mundo vibra com a transformação da imagem administrativa promovida pelo Obama, meus colegas branquelos querem ferrar o Celso Pitta?".
Concluindo, não houve votos suficientes para a aprovação das contas, e o assunto ficou de voltar a pauta nesta semana. Segundo a coluna da Folha, um dos primeiros projetos de Timóteo na nova legislatura é para mudar o Dia da Consciência Negra de 20 de novembro para o primeiro domingo de outubro, coincidindo com a data das eleições. "Assim os negros tomam vergonha na cara e começam a se unir para eleger seus irmãos étnicos”.
Bom, para variar (quem já o ouviu sabe disso), mais uma vez o nobre parlamentar perdeu a oportunidade de se calar. Não digo apenas pelo fato de defender a conhecida administração do ex-prefeito Celso Pitta, que provou a sua “honestidade” ao passar pela prefeitura da capital, mas que, independente da sua cor de pele, não deve ser punido sozinho (já que não participou de um monologo. Afinal, saquear recursos da maquina publica em vôo solo não é fácil).
O que realmente me chama atenção no texto é a fala do vereador, comparando dois extremos, a cor da pele e o caráter. As ações de um (caráter), não dependem do outro (cor), como sabemos.
O negro não precisa utilizar das virtudes, ou malefícios (como assim pensam alguns) da sua bela pigmentação para ter vantagem em suas relações. O negro merece sim ter o seu espaço, mas por outros critérios (muito mais relevantes, diga-se de passagem, e que milhares de negros brasileiros os possuem).
A beira do ano de 2010, um homem publico, querer inocentar ou punir alguém utilizando como artifício a cor da sua pele é um grande prova da alienação política impera em muitas das câmaras e assembléias Brasil a fora.
Aproveitando a comparação com o presidente Obama (que também foi citado pelo nobre vereador), assim como aconteceu nos E.U.A, gostaria muito que um negro governasse o Brasil. Não chegando pela culatra, mas pela sua capacidade administrativa, caráter, paixão pela sua terra e seu povo.
Hasta breve
ps. Não tenho procuração para defender A, B ou C. Sou apartidario, brasileiro da gema.
Tem que ter swingue

Do pobre ao rico. Da criança ao idoso. Os momentos, as paisagens e os acontecimentos nunca foram tão registrados como agora (que o digam as pseudocelebridades mundo a fora). A criança fotografa os brinquedos; o adolescente, os amigos e as gatas; o adulto, as festas e as viagens; o idoso, os netos e assim por diante.
Hoje, o poder de eternizar algo através de um click não é das façanhas mais difíceis, não é atoa que milhares de fotologs, flickrs e álbuns espalham-se como gripe pela Internet.
Porém, ao contrário das facilidades que a era digital proporcionou a fotografia, as dificuldades para quem sobrevive deste ofício, no que diz respeito a remuneração e ao reconhecimento, tomaram o caminho inverso. Com mais “fotógrafos” no mercado e mais imagens na rede, ficou mais difícil conseguir bons salários e a consagração tão almejada.
Mas como o olhar sensível, a percepção aguçada, um indicador bem treinado e, principalmente, o amor a fotografia, ainda são características do seres humanos, os bons registros, ou melhor, a boa fotografia, apesar das milhares de máquinas espalhadas por aí, continuam sendo raras.
E não há photoshop no mundo que inverta essa situação.
É neste contexto que ferramentas como o esforço, o empenho e a dedicação, diferenciam uns dos outros.
Aliás, foi a combinação desses equipamentos que fizeram do repórter fotográfico Luiz Vasconcelos, do jornal “A Crítica”, de Manaus, o vencedor da categoria Notícias Gerais do concurso World Press Photo.
Para os que desconhecem, a World Press Photo é uma organização independente sem fins lucrativos fundada em 1955, em Amsterdã, Holanda. A entidade é reconhecida pelos quatro cantos do globo terrestre por realizar anualmente a maior e mais prestigiada premiação de fotografia do mundo.
Luizinho, como é chamado pelos amigos, registrou a imagem chocante de uma índia com um bebê no colo enfrentando a tropa de choque da polícia do Amazonas (fotografia que ilustra este texto), e acabou beliscando o prêmio na categoria de Notícias Gerais, na eleição realizada no inicio de fevereiro pela World Press Photo. Um orgulho para todos nos brasileiros.
A vitória de Luiz, fotógrafo da antiga, há mais de 35 anos no importante, porém pouco conhecido, jornal amazonense “A Crítica” (sendo 15 deles cobrindo ronda policial), além de mais uma vez nos fazer engolir o ditado de que Panela velha (ainda) faz comida boa, mostrou que, mesmo sem os alicerces das corporações de ponta e sem os flashes dos artistas mais famosos, o reconhecimento pode ser alcançado por todos que o almejam.
Um recente relato de um dos seus colegas de trabalho descreve bem o seu empenho no dia-a-da da redação.
“Suas fotos são ricas em detalhes, refletem a realidade de um Brasil dentro de si mesmo, e que muitos desconhecem. Muito nos orgulha sua coragem, garra, caráter, humildade, dignidade e personalidade, Mesmo diante de tantas dificuldades segue em frente mostrando ao Brasil uma dura realidade”, confidenciou.
Esqueçam a vida boa e as facilidades profissionais evidenciadas por novelas, filmes, seriados ou revistas de celebridades. Porque só tempo, a prática, a perseverança e, claro, o dom e a paixão pelo ofício, podem fazer o almejar, transformar-se em ser.
Assim sendo, pra entrar no time, tem que ter swingue.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Festa Boa

Conheci a Cia. Baitaclã em 2007, através de um amigo com qual trabalho, o Luiz, mais conhecido como Luiz Fotografo (por viver com sua maquina de bolso digital pra cima e pra baixo).
Bom, a Baitaclã é na verdade um grupo de teatro, que valoriza muito os instrumentos de percussão e que possui fortíssima ligação com a produção cultural nordestina. Eles realizam mensalmente no Galpão onde possuem uma sede, no Planalto Paulista, uma batucada animadíssima. Quem quiser, basta chegar com um instrumento, (na humilde, é claro) e participar do barulho.
Encontrei lá um pedacinho do Maranhão perdido na selva de pedra que vivemos. Vale a pena conhecer.
Nesse Sábado (14) vai rolar uma festa especial de carnaval. Seguem os dados
QUANDO: 14 de FEVEREIRO - Sábado
QUE HORAS: das 19h às 23h
COMO VAIS ER: Venha Fantasiado e pague R$ 3,00*
QUANTO CUSTA: R$ 5,00 - com direito à uma bebida ou um lanche OU
R$ 3,00 - FANTASIADO ou tocador com instrumento
TEM MAIS O QUE?
- concurso de fantasia
- baile com marchinhas
- tradicionais ritmos brasileiros
(coco, maracatu, jongo, sambas enredo, ciranda...)
* adereço não é fantasia
ONDE FICA O PICO: Galpão do Clã
Rua Professor Onofre Penteado Jr, 51 - Planalto Paulista, São Paulo - SP
Alt. do 2950 da Av. Indianópolis, prôx. metrô São Judas
(11) 5583-3151
Traga seu instrumento e sua fantasia e venha tocar, dançar e se divertir com a gente!
AVISE À TODOS!!!!!!
CIA BAITACLÃ
ciabaitacla@ciabaitacla.com.br
http://baitacla.mutiply.com
O Rap? De novo não!

De acordo com o secretário Carlos Augusto Kalil, a medida faz parte do contigenciamento de 33%, estipulado pela Prefeitura que, em razão da crise financeira internacional (a famosa marolinha que acabou nos atingindo como um verdadeiro Tsunami) fez cortes no orçamento do município.
Até aí tudo bem, já que todos os setores do poder público (tirando os salários e as verbas destinadas ao funcionalismo e afins) tiveram cortes. O problema, porém, está em um detalhe, ou melhor, dois, que para muitos passou desapercebido. Trata-se dos palcos que, segundo o próprio secretário, serão sacrificados pelo corte do orçamento e que ficarão de fora da festa este ano. São eles o do Parque Dom Pedro e o da avenida Rio Branco. Respectivamente os palcos de Rap e Samba da festa de 2008.
Kalil não afirmou, porém, se os ritmos, assim como os palcos, serão excluídos do evento.
Espero que não, tanto o rap como o samba são manifestações da música brasileira fundamentais na formação da identidade cultural de milhares de pessoas. O rap, ritmo que gosto e acompanho, apesar de não estar nos programas de TV e tão pouco nas manchetes de jornal é, sem dúvida, um dos mais presentes gêneros musicais do cotidiano da juventude paulistana.
Os recentes episódios que marcaram as grandes apresentações de Rap na cidade, a Virada Cultural de 2007, onde houve o famoso “tumulto” durante o show dos Racionias MC’s, e o show do aniversario de 455 anos de São Paulo, em janeiro ultimo, quando uma outra confusão (menos divulgada, mas de igual relevância nas suas proporções) não devem, ou pelo menos não deveriam, prejudicar uma grande maioria de apreciadores da musica e que são do bem.
A importância e a relevância do Samba falam por si só. Seria redundante (da minha parte) querer questionar um ritmo que com certeza deve estar presente em 8 de cada 10 festas realizadas no pais.
Porém, quanto ao Rap, a descriminalização ainda vigora e a repressão impera, eh evidente. Mas a safra de novos e bons nomes na cena e a motivação do seu publico são muito mais fortes do que qualquer movimento “separatista”. O gênero já provou que está mais do que enraizado por aqui.
Espero que a prefeitura pense nisso. Um evento democrático e multicultural como a Virada não deve privar o seu público de apreciar riquezas da sua terra. Espero que não o faça.
O Rap é o som da Paz, não de bandido,Tem que ser ouvido e assistido
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Samba da Minha Terra

Foi neste ano que o cantor e compositor Dorival Caymmi escreveu a clássica canção "Samba da Minha Terra", onde afirma: "Quem não gosta de samba, bom sujeito não é. É ruim da cabeça, ou doente do pé".
E ele tinha razão, principalmente tratando-se do miscigenado povo brasileiro.
Eu, como bom tupiniquim, afro-descendente da gema, não poderia deixar de concordar com os sábios versos deste gênio da música popular brasileira.
Afinal, que me perdoem os roqueiros, sertanejos, forrozeiros e afins, mas nada como desfrutar das batidas de tamborins, bumbos e chocalhos, aliados a letras idealistas, bem humoradas e ao requebrado sem igual das curvilíneas mulatas brasileiras.
E apesar de já ter sido considerado, pateticamente, o túmulo do samba, pelo compositor Vinicius de Moraes, São Paulo tem boas opções no que diz respeito ao Samba, especialmente nesta época de pré-carnaval.
Por isso para quem não dispensa uma boa farra musical, segue uma pequena programação de desfile de blocos carnavalescos que devem sacudir a cidade nos próximos dias.
Sem os padrões rígidos dos desfiles do Anhembi, e com valores culturais muito mais autênticos, os blocos são garantia de diversão, e de quebra ainda rendem excelentes registros fotográficos.
A folia já começou!
Bloco Unidos da Maria Antonia (B.U.M.A)
Banda Bantantã
Classe A
Barracão da Folia
Bloco da Ressaca
Banda Grone's
Banda do Fuxico
Banda Redonda
Banda do Candinho
Bloco Umes Caras Pintadas
Banda do Trem Elétrico
Bloco dos Esfarrapados
domingo, 8 de fevereiro de 2009
O Paxá dos 16mm

Lembro-me que nossos primeiros contatos aconteceram quando ele procurava o jornal para fazer a divulgação das sessões do Cine Clube Ipiranga, projeto encabeçado por ele e que ora era apresentado no SESC Ipiranga, ora na Biblioteca Municipal Roberto Santos, locais onde o velho cinéfilo exibia, gratuitamente, raridades do cinema nacional e internacional em 16mm.
Como na época as exibições aconteciam semanalmente, nossa relação foi se estreitando com o passar do tempo, até nos tornarmos amigos.
Archimedes é um sujeito tranqüilo, bem humorado e capaz ate de perder o amigo, mas não a piada. Como o encontrava com freqüência pelas ruas e eventos do Ipiranga, bairro onde o velho cinéfilo reside há 50 anos, aos poucos fui conhecendo melhor sua trajetória, realizações e a intima relação que ele tem com o cinema.
Assumidamente um amante da sétima arte, Archimedes dedicou, e continua dedicando, grande parte do seu tempo a esta paixão.
Nascido em 1942, na cidade de Santo Anastácio, interior de São Paulo, Archimedes teve o primeiro contato com o cinema ainda na sua terra natal. Na adolescência, chegou a ajudar o pároco local nas exibições de filmes na pequena sala de cinema da cidade.
Despretensiosamente, fundou em 1964 o Cine Clube Ipiranga, que começou com o intuito de reunir amigos. Na época, Archimedes alugava algund filmes e os projetava nas casas dos vizinhos.
Mais tarde, em 1992, junto com o amigo Antônio Leão da Silva Neto, fundou a ABCF (Associação Brasileira de Colecionadores de Filmes em 16mm), entidade que reúne colecionadores de todo o Brasil, com a finalidade de catalogar, preservar e exibir filmes raros em sessões gratuitas. Segundo o velho Archimedes, a ABCF já exibiu mais de 500 filmes raros, alternativos e produções fora de circulação.
Apesar dos inúmeros compromissos com as exibições dos filmes e da Gráfica Romancini, da qual é proprietário, Archimedes pode ser facilmente encontrado na sua casa, local que também serve de escritório e onde ele armazena as dezenas de rolos de filmes em 16mm que coleciona.
O nariz rechonchudo, o cabelo bagunçado, a camisa sempre com os botões abertos e a inseparável sandália de borracha, escondem um sujeito extremamente inteligente e profundo conhecedor de cinema.
Não há como iniciar uma conversa com ele que não dure 20, 30, 40 minutos, isso porque insistimos em dizer que temos compromisso, caso contrário, Archimedes nos envolve em suas histórias e causos por horas.
Como disse, já tinha feito algumas matérias com ele, mas sempre pautado pelo editor do jornal. Dessa vez não, procurei o senhor Archimedes para batermos um papo mais descontraído, exclusivamente para o blog.
Nossa conversa aconteceu na sexta-feira (06), no final da tarde, quando fui visitá-lo.
Quando cheguei, por volta das 18h30, o senhor Archimedes ainda não estava. Mas como a porta do escritório estava entre aberta resolvi esperar. Sentei na mureta em baixo da janela, acendi um Lembranças de Marlboro (L&M) e fiquei fitando a movimentação da rua.
Não demorou muito e ele chegou, estava acompanhado do jovem Vinicius. Sujeito tímido, de estatura mediana, aparentemente com trinta e poucos anos e também apaixonado por raridades em 16mm. Segundo senhor Archimedes, muitos dos seus filmes foram repassados (negociados) com o pupilo, que já conta com mais de 700 copias em seu acervo.
Archimedes me convidou para entrar. Enquanto observava o anfitrião da casa empurrar a sua Olivetti dos anos 60 (maquina de escrever que ele ainda utiliza, principalmente para escrever cartas, bater guias e preencher cheques) para o canto da mesa, fui me acomodando.
Nossa conversa foi rápida (já que tanto ele como eu tínhamos compromissos), porem, bastante proveitosa. Veja os melhores trechos
Cinema
É o ópio que eu fumo, o pó que eu cheiro.
Preferências
Filmes antigos. Gosto muito de documentários e filmes que realmente tenham uma historia, que tenham conteúdo.
Maior sacrifício para conseguir um filme
Fiquei 16 anos esperando para ter o filme francês “Balão Vermelho”, de 1951. O dono do material nunca quis negociá-lo comigo. Mas no ano passado ele morreu, fui ate a casa dele e finamente consegui o filme (rs).
Cinema contemporâneo
Não gosto, ou melhor, o cinema feito hoje em dia não me atrai muito. Gosto de pouquíssimas coisas.
Cinema alternativo
Infelizmente bons filmes do circuito alternativo ficam, quando entram em cartaz, muito pouco tempo em exibição. Acho que faltam mais salas alternativas espalhadas pela cidade. Atualmente esses filmes podem ser vistos em uma ou outra sala patrocinada por bancos, como o Unibanco e o HSBC. É uma pena que seja tão restrito.
Produções contemporâneas de qualidade
Tem muita coisa boa sendo produzida pelo cinema italiano, mexicano e argentino.
Como faz para adquirir os filmes
Costumo garimpar feiras de antiguidades, como a do Bixiga e da Praça Benedito Calixto. Nós (colecionadores e admiradores de filmes em 16mm) temos uma rede de relacionamento de aproximadamente 20 pessoas aqui em São Paulo, mais umas 30 pessoas espalhadas pelo pais, é dessa maneira que conseguimos algumas cópias e informações.
Acervo
Hoje em dia tem só umas 100 copias. Já passei muita coisa pra frente
Projetores
Tenho 12, mas apenas quatro funcionam.
Já participou de algum filme
Por duas vezes tive a oportunidade, mas na tive tempo. Um deles foi o filme A Margem, de 1964. Na época os trabalhos da Gráfica tomavam todo o meu dia.
Tem algum tipo de frustração por não ter feito um filme
Não. Houve um tempo, nos anos 70, que cheguei a fazer uma espécie de cooperativa para produzir um filme. O custo das filmagens era muito caro, por isso era necessário uma sociedade. Éramos em 10 pessoas. Mas ora, um saia, outro entrava, mais dois saiam...ai acabei desistindo.
Ps. A caminhada deste cara é muito grande. Precisaria de um Blog só pra contar sobre a sua trajetória. Por isso, é muito difícil entrar em detalhes. Mas, segue a baixo algumas dicas para quem quiser saber mais sobre a sua história.
Atualmente o velho Archimedes esta com uma programação de filmes em 16mm (claro) na Biblioteca Municipal Roberto Santos, no Ipiranga. Ele próprio leva o projetor e põe a bagaça pra funcionar. Intitulada “O Novo Velho Oeste”, a mostra apresenta uma seleção caprichada de filmes de Western. As exibições acontecem todos os sábados do mês de fevereiro, a partir das 19h.
A Biblioteca fica na rua Cisplatina, 505.
Trata-se de uma ótima oportunidade para conhecer o senhor Archimedes Lombardi, o Paxá dos filmes em 16mm.
+ INFO
TEL 11 2914 0598
E-MAIL romancinilombardi@terra.com.br
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
CABRA SPE(R)TO
O Speto, o Daniel Melim, o Nunca e o Onesto foram os artistas convidados para fazer a presa em uma das laterais do lado externo do Museu. Cada um fez um painel.
A abertura da expo tava marcada para as 13h, cheguei uns dez minutos mais cedo. O Speto tava sozinho, ou melhor, comprimentado um ou outro que se aproximava, enquanto observava a distancia os trabalhos produzidos pelo quarteto e a movimentação no parque.
Aproveitei a oportunidade, me aproximei e trocamos uma idéia.
Mal começamos a conversa e ele comentou indignado: “Você viu que pixaram o painel do Kobra?! Puta sacanagem! É um descarrego de frustração. É para se aparecer, só pode ser. Quem fez isso quer mídia. É como querer destruir seus ídolos para provar que você é mais do que eles”, falou, comentando sobre o painel pintado pelo artista Eduardo Kobra na av. 23 de maio, que por sinal já foi refeito.
Enquanto me apresentava um casal de amigos e um argentino que esta fazendo um documentário sobre grafite no Brasil, Speto foi falando um pouco dos seus trampos, expondo pontos de vista e colocando alguns pontos nos “is” em assuntos que rondam tanto as rodinhas de grafiteiros como a de pixadores da capital.
Alem de trabalho, falou da saudade da esposa, professora de yoga que esta estudando fora do país, e que foi homenageada por ele no painel pintado no Museu Afro Brasil.
Ate escrever este texto, conhecia muito pouco sobre o Speto. Basicamente já tinha visto algumas das suas ilustrações, um grafite ou outro e os trampos com O Rappa. Resolvi pesquisar um pouco sobre o seu role e descobri o que muitos já sabiam, o cara é talentoso.
Quanto a nossa conversa, Speto mostrou-se atencioso, bastante antenado as atualidades e muito dedicado no que faz.
O papo foi tiro rápido e totalmente informal. Como o material colhido não foi muito volumoso, também anexei ao texto alguns trechos de uma entrevista concedida pelo Speto ao repórter Emilio Fraia, do site Real Hip Hop, em julho de 2005.
Entre alhos e bugalhos, veja como ficou.
Nome
Paulo César Silva, SPETO
Idade
37 anos
Tempo de role
Desde 85
Inicio
Estilo
Formação
O Artista
Sempre trabalhei muito e o trabalho força a gente a ser forte e perder os mimos de artista. Um profissional não fica esperando a inspiração chegar na mãozinha, a gente vai e faz. Isso faz a diferença. O mercado jovem é o mais lucrativo do mundo e nunca as artes visuais foram tão importantes como hoje. É uma oportunidade única de viver daquilo que gostamos de fazer.
Rótulos
Odeio rótulos. O grande mal dessas pessoas que destroem o trabalho como o do Kobra é querer rotular um trampo. É uma maneira de separar e dizer que você esta certo e o outro esta errado.Acho que independente da técnica utilizada, o trampo tem que ser avaliado como bom ou ruim, so isso.
Pintar no Museu
Foi uma puta responsa, por que alem de ser o Museu Afro, a arquitetura do prédio projetada pelo (Oscar) Niemyer. Foda!
Fiz um Ogum, que é o orixá guerreiro. Tem também a imagem da mulher, que por sinal é a minha, que transmite paixão. A criança a inocência. A igreja a mistura de religiões. O galo porque Ogum como galo.
Pixação
Não tenho nada contra. Já pixei, mas nunca me identifiquei muito. Na época que comecei a fazer uns grafites eram poucos os que pixavam.
Hoje
Tenho feito bastante ilustração e telas que vão para galerias. As vezes saio pra rua pra fazer uns grafites. Hoje em dia as mídias estão muito próximas. O que antes as pessoas viam como coisas opostas, hoje aprenderam a enxergar que na verdade são muito próximas.
Planos
Um dos meus objetivos é fazer trabalhos em conjunto com pessoas que tenho afinidade e que acompanham meu role há anos. Seria como um coletivo. Com trabalhos individuais e também com projetos em conjunto.
Ilustração
Já fiz trampos para a Fluir, Venice, Simples, Vip, Vogue RG, TRIP.
Musica
Trabalhei com os Raimundos, Charlie Brown Jr., Planet Hemp, Ira!, Nação Zumbi, Zé Gonzáles e O Rappa. Já expôs na Bienal de Arquitetura, fez animações para a MTV e mais de 80 shapes de skate.
O Rappa
O que mais tirei de exemplo durante o tempo que trabalhei com O Rappa foi o lance do contato com o publico. A química de uma intervenção em um show.
Tinha cerca de 1h30 para fazer o trampo e tudo era inspirador. Participei das turnês do Lado B Lado A, Instinto Coetivo e um período curto do Silencio que Precede o Esporro.
3D
Bomb
Envolvimento com o Hip Hop
Rap Nacional
Inspiração
Produto Nacional
Melhores Grafiteiros
Considerações finais
Abraço para todos.
+ INFO:
www.speto.com.br
ps. Atualmente as telas do artista podem ser encontradas na Galeria Choque Cultural, em São Paulo.
domingo, 25 de janeiro de 2009
Deus foi almoçar

Derrepente as luzes se apagam e os tradicionais trailers começam a ser exibidos. Olhos fixos no telão. Atenção a cada cena. Ele precisava observar os detalhes do longa nacional “Os 12 Trabalhos” – de Ricardo Elias, afinal, iria comentá-lo.
Exatos 90 minutos depois e a exibição termina, as luzes do Teatro são acesas. Solitário, ele se levanta, sobe ao palco, puxa uma cadeira, uma mesinha, pede uma garrafa de água, ajeita as calcas e senta-se.
Na platéia, as cerca de 30 pessoas (entre homens, mulheres, jovens e mais coroas) aproximaram-se do palco. Ansiosas, conversam e observam os movimentos do convidado enquanto aguardam a largada para dar inicio aos questionamentos. Queriam saber os pontos de vista, o que pensa e o que acha aquele jovem rapaz.
O sinal verde foi dado minutos depois de todos se acomodarem nas primeiras poltronas. Uma das moças envolvidas na organização do evento anunciou:
“bom, este é o projeto Crônicas da Cidade, do SESC, e que através de duas linguagens artísticas, no caso a literatura e o cinema, pretende promover uma reflexão sobre São Paulo.
Por isso, após a exibição de filmes que retratam a capital paulista, como este que vocês acabaram de ver, um escritor convidado conversa sobre desencontros, utopias, paulicéia poética, do trânsito de idéias, submundo paulistano, morte e vida com a platéia.
O escritor convidado de hoje é o Ferréz. Quem quer começar a perguntar?”
Foi assim que conheci o Ferréz Periferia, como ele mesmo se intitula. O encontro rolou na noite de quinta-feira (22), no SESC Ipiranga.
Dono de um humor inteligente, bem informado e defensor dos “sem dinheiro por enquanto”, Ferréz ficou por cerca de uma hora respondendo perguntas e expondo pontos de vista.
Após a sessão, peguei ele de orelha. Falei sobre minhas pretensões ali e ele topou conversar mais um pouco, desta vez sobre ouros temas que não o filme. Atencioso, iniciamos a conversa, que terminou no outro dia após ele responder um e-mail.
Segue aí o Raio – X!
Nome e Sobrenome
Ferréz Periferia
Idade
33
Casado
sim
Filhos
1 menina
Quebrada
Jardim Amália
Hoje
Dirigindo a marca 1dasul, a editora L.M e fazendo um novo romance.
Objetivo das obras
objetivo é contar histórias, promover debates, trazer inquietudes, alcanço gente bem diferente, de mega empresários a tiazinha do café, e gosto de ser assim, de fazer textos para todos.
Barack Obama
ao contrário de todos, não ligo, a política excludente americana não mudará por um só homem, sendo ele presidente ou não, a história prova isso, veja o Brasil.
Literatura Marginal (L.M)
O projeto existe desde 1999, começou junto com a 1dasul, um selo que promove novos autores, contestadores e de todos gêneros e locais periféricos desse pais, começou como revista, em 2001 saiu a primeira, já lançamos 44 autores, e agora virou editora, o primeiro livro sai esse ano, por R$5 em todo lugar que for vendido. a idéia principal é espalhar cultura como pão, não como caviar.
Escritores da periferia
A periferia já provou muitas vezes que tem força para produzir bons escritores, desde o samba, rap, rock até a alta literatura, como Lins, Carolina de Jesus, e lá fora também como Gorki.
2009
um dvd contando minha história, chamado Literatura e Resistência, e tocar a 1dasul e o selo L.M além do meu livro novo "Deus foi almoçar".
Rap
Continuo compondo, mas não penso em fazer outro cd no momento.
1DASUL
uma marca de roupa, que faz tudo aqui na quebrada e é vendida aqui, produzida e comercializada pela quebrada, auto sustentação, sem depender de predador nenhum.
Preconceito (brancoXbrancoXpretoXpretoXbranco) na Periferia
ainda vejo o negro sofrendo mais que o branco, o preconceito também vem do pobre, desde chamar de baianinho até de neguinho, sempre é assim, difícil mudar, mas agente tenta.
O gosto pela leitura X Vida Bandida
pratico terrorismo, sou criminoso, trafico informação, tenho porte ilegal de inteligência, contrabandeio debates, descobri o gosto pela leitura, tentando respirar, então devorei Hesse, comi Gorki e bebi Flaubert, com pitadas de Plínio Marcos e Lima Barreto.
Inspiração
em tudo, na exclusão, no olhar do mendigo, no vidro fumê do carro importado e na ausência de amor.
Experiências com Cidade dos Homens, 9mm e Manos e Minas
muita coisa né? mas isso tudo dá fama mas não dinheiro, a realidade é que vendo bonés, e camisas para viver, foi legal ter feito trabalhos assim, mas prefiro escrever os livros, acho mais digno.
Considerações finais
o estudo é o escudo, contra o sistema estúpido, nunca acredite em entrevistas, muito menos nessa, consciência é a chave, então leia e releia os clássicos e os marginais, isso só tá bom, o resto é enrolação.
Axé,
Ferréz
+ INFO
ferrez.blogspot.com
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Será?

O texto dizia que: “A idéia é que empresas assumam a administração de painéis de grafite. Em troca, poderão colocar uma placa no local. O grafite, porem, não poderá remeter a produto ou marca da empresa”.
Na mesma matéria, representantes da Emurb (Empresa Municipal de Urbanização), disseram que praças, viadutos e terrenos municipais próximos a estações de trem e metro estão entre os espaços que poderão ser recuperados pelas parcerias.
Resumindo, ótima noticia. Apesar do evidente caráter político da ação.
Espero que esta informação deixe de ser noticia e transforme-se em um fato real. A cidade agradeceria. Mais cores, mais vida, mais arte, mais cabeças pensantes em atividade.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
vElha guardA

Tímido, ousado, destruidor de paradigmas e conceitos. Extremamente representativo dentro do universo da contra cultura, o artista paulistano Guto Lacaz, 60, um misto de designer gráfico, engenheiro, arquiteto e professor Pardal, faz parte de um seleto grupo de artistas cuja obra deve ser conhecida, analisada e, se possível, compreendida.
Por sorte, e sem querer, tive acesso a sua obra no final do ano passado. Vi sites, vídeos, entrevistas e fotografias.
Seu trabalho simplesmente desconstrói, atormenta, questiona, perturba e, acima de tudo, impressiona. Arquiteto por formação, designer por paixão, Lacaz é artista porque a natureza quis assim, isso fica evidente em cada um dos seus trampos. Suas obras (especialmente as não comerciais) transpiram anarquia, rebeldia e transgressão.
Algumas de suas realizações chegam a beirar a insanidade. Ainda bem, a mesmice artística é um tédio.
+ INFO: http://www.gutolacaz.com.br/
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Os incomodados que se mudem!




A cada passo que damos e em cada esquina que cruzamos a diversidade nos acompanha nessa cidade intensa, e extensa, em todos os sentidos. Para quem, como eu, respira arte udenground e marginal, São Paulo é o paraíso da transgressão.
A cada muro, beral ou fachada que vemos pela cidade nosso espírito aventureiro é despertado, mesmo que inconscientemente. Impossível andar pela cidade e não querer estar com uma lata de spray, uma escada e um galão de tinta na mão e devastar o cinza que, tenta, se esforça, mas que não consegue superar o fôlego dessa mulecada colorida e incansável que vive em sampa.
O grafite e a pichação (manifestações as quais me refiro), que para muitos não passa de vandalismo e rebeldia sem causa, é na verdade a mais pura expressão da arte contemporânea que consigo identificar em São Paulo.
A própria arquitetura da cidade é um convite a este tipo de manifestação, que há anos é combatida, mas que, para azar de uns, e sorte de outros, já esta fincada no processo de afirmação, e formação, do jovem que vive por aqui.
Nesse final de semana aproveitei um tempo livre que tive para registrar alguns locais onde o grafite e a pichação interagem com a arquitetura da cidade, que pode sim, ser limpa, como quer o nosso prefeito, mas careta, nunca! Arte para todos.
Os incomodados que se mudem!
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Zé, Zezinho, Zezão - A versatilidade de José Augusto Capela


Com quase 15 anos de role, esse paulistano bem articulado, com dezenas de tatuagens espalhadas pelo corpo e reconhecidamente autêntico, se rotula como um cara....sem rótulos. “Gosto de fazer de tudo um pouco”, costuma dizer.
Bem sucedido em suas empreitadas artísticas, tanto na rua como nas galerias, Zezão me concedeu uma entrevista na tarde de segunda-feira (08). Com a exposição “Zezão o Fotógrafo”, em cartaz na Galeria Choque Cultural e outras dezenas afazeres, Zezão preferiu o contato por telefone. Não titubiei, e fiz a conexão zero 11 ABC/ Zona Norte.
Abaixo seguem os principais trechos do nosso papo.
NOME
José Augusto Capela
QUEBRADA
Zona Norte/ São Paulo
IDADE
37 anos
TEMPO DE ROLE
Em 2009 completo 15 anos de carreira
Costumo registrar meus roles desde 95. É uma maneira de imortalizar meus trampos, já que, diferentemente das galerias, na rua, os desenhos estão desprotegidos. É uma prática normal entre os grafiteiros fazer isso.
RELACAO COM A FOTOGRAFIA
De uns cinco anos para cá, passei me interessar mais por fotografia, e a ter uma sensibilidade maior. Passei a estudar mais e a me preocupar com toda a composição da foto. Comecei a ter uma visão mais fina da cidade e da fotografia.
É A PRIMEIRA VEZ QUE EXPOE SEUS REGISTROS
Nesta exposição que esta em cartaz na Choque Cultural, criei duas ambientações. São instalações que tentam estreitar ainda mais a relação entre a rua e a galeria.
VERSATILIDADE
Minha primeira vídeo-instalação aconteceu no Itaú Cultural, em São Paulo, na mostra “Quase Líquido”, onde expus um vídeo totalmente desenvolvido por mim. Assim como o vídeo que esta em exposição na Choque Cultural.
ROLES
Porém, também tenho um trabalho mais colorido, que inclusive pode ser visto no Beco do Batman, na Vila Madalena.
O Flop é mais uma assinatura, algo que consigo fazer até seis em único dia.
ROTINA
A galeria, ao meu entender, é meio que o Feedback do role na rua. É o reconhecimento da nossa arte. São muitos anos de militância, batendo de frente e defendendo a rua.
É bem difícil levar a arte para um cubo branco.
Tenho estudado bastante para me inserir de uma maneira que me agrade dentro das galerias.
Quero chegar o mais próximo possível do que faço nas ruas.
Já fiz trampos comerciais para a Nike, Skol, Mc Donalds.
Naturalmente, acabamos nos conhecendo. Disse para ele que admirava o role que ele fazia. Disse também que gostaria de começar a assinar VICIO também. Foi assim que comecei no VICIO.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Cordel na Vila

domingo, 7 de dezembro de 2008
Pátria Amada Hostil

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Manaus em fotos
Tacca é arquiteto formado, e um dos grandes fotógrafos brasileiros. Suas fotos renderam um excelente ensaio!
Anos de Chumbo
A partir de documentários produzidos durante, ou após, o período da ditadura militar (1964-1985) no Brasil, o Centro Cultural São Paulo organizou o ciclo "Os Anos de Chumbo pelos Olhos do Documentário", que acontece até domingo (07/12).O ciclo tem como objetivo apresentar ao público um recorte da produção audiovisual sobre o período militar - os Anos de Chumbo - a partir da ótica dos documentários, ressaltando, discutindo - em debate -, o papel dos documentários e documentaristas nesse processo.
Vi várias pedradas na programação!
Para ver a programação ou obter mais informações, acesse: http://www.centrocultural.sp.gov.br/programacao_cinema.asp#anoschumbo
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
O crime da calça larga!
OBS: Não gostaria de utilizar O MENELICK 2º ATO para expor minhas opiniões, mas, volta e meia isso vai acontecer. Batata!Desculpa aí.
Costumo zapiar jornais todos os dias. Pelos menos três passam pelas minhas mãos até o fim da tarde. Nada contra ao dinamismo da Internet, que utilizo bastante, mas gosto do prazer de folhear.
Hoje, o jornal Metro, estampava na capa uma foto de meia página de um cara andando de skate. A primeira vista estranhei, afinal, trata-se de um esporte que poucos praticam e/ou admiram (é “apenas” o segundo mais praticado no país) e, talvez, por isso não tenha espaço na grande mídia.
Porém, mais do que a foto, o que despertou minha atenção foi o título da imagem: “Prefeitura quer expulsar skatistas da av. Paulista”.
Ainda de acordo com matéria, o efetivo de GCMs (Guardas Civis Metropolitanos) na avenida Paulista foi praticamente dobrado . “Além dos 23 homens que patrulham a região diariamente, a corporação deslocou mais 23 guardas para a avenida. A PM também participa da ação”, dizia a reportagem da dupla Álvaro Magalhães e André Porto.
Segundo o texto, como não há lei que proíba a prática do esporte, a ordem é enquadrar a turminha por dano ao patrimônio e/ou ameaça a integridade dos pedestres.
Não tenho procuração para defender skatista (apesar de ser adepto do esporte), mas e quem corre na rua, jogo futebol, pedala, também será repreendido?
O que vemos é mais uma prova que, apesar de todas as conquistas (muitas delas sociais inclusive), o SK8 segue marginalizado no Brasil.
Às vezes é mais fácil reprimir do que incentivar.
Calça larga é crime!
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
II Encontro Paulista de Hip Hop
Atraído pela promessa de realização de palestras, workshops e apresentações musicais, escolhi como programa para a minha, merecida, tarde livre de sábado (29), o II Encontro Paulista de Hip Hop, que aconteceu no Memorial da América Latina, na Barra Funda.Engajado, bem planejado e promovido em um espaço adoravelmente bonito, o evento superou minhas expectativas. Sorte de quem, assim como eu, soube da sua realização e pode conferir de perto a diversificada programação.
Divulgada por alguns como a festa de encerramento das comemorações ao Dia da Consciência Negra, o II Encontro Paulista de Hip Hop proporcionou aos seus participantes muito mais do que uma simples saidera, já que conseguiu reunir em um único local, além de legítimos representantes dos quatro elementos do Hip Hop, palestrantes com trajetórias ricas e currículos dignos da festa, o que qualificou os debates, que giravam em torno de temas que abordavam desde as africanidades presentes no Hip Hop até discussões sobre os 120 anos da Abolição.
Parabéns aos seus realizadores. Nossa juventude precisa ser abastecida com esses valores.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
MLK
Martin Luther King Jr, filho do casal Martin Luther King e Alberta Williams King, foi um dos mais famosos líderes do movimento americano pelos direitos civis e defensor da resistência não violenta contra a opressão racial da historia. King nasceu no dia 15 de janeiro de 1929, em Atlanta, Estados Unidos. Formou-se em Sociologia, no Morehouse College, em 1948. No Morehouse, teve como mentor Benjamin Mays, conhecido ativista dos direitos civis. Em 1951, King formou-se no Seminário Teológico Crozer, em Chester, Pensilvania. No dia 18 de junho de 1953, casou-se com Coretta Scott King, com quem teve quatro filhos.Em 1954, se tornou pastor da Igreja Batista, em Montgomerry, Alabama. Em 1955 tornou-se PhD em Teologia Sistemática pela Universidade de Boston, razão do uso comum do titulo de Doutor.
Os estudos de King, tanto em Crozer como em Boston, levaram-no a analisar os trabalhos do líder pacifista indiano Mohandas Karamchand Gandhi, cujas idéias se tornaram o núcleo da sua própria filosofia sobre o protesto não violento
King ficou mundialmente conhecido na luta em defesa dos direitos civis em razão de um episodio ocorrido em 1955, nos Estados Unidos, quando Rosa Parks, uma mulher negra, se negou a dar seu lugar em um ônibus para uma mulher branca e foi presa. Os líderes negros da cidade organizaram um boicote aos ônibus de Montgomery para protestar contra a segregação racial em vigor no transporte. Durante a campanha de 381 dias, co-liderada por King, muitas ameaças foram feitas contra a sua vida. King chegou a ser preso e viu sua casa atacada. O boicote foi encerrado com a decisão da Suprema Corte Americana em tornar ilegal a discriminação racial em transporte público.
O boicote de Montgomery foi uma vitória do protesto pacifista, e King emergiu como líder altamente respeitado. Como conseqüência os clérigos negros de todo o Sul fundaram a Conferência de Lideranças Cristãs do Sul (SCLC - Southern Christian Leadership Conference), cujo objetivo foi organizar o ativismo em torno da questão dos direitos civis. King foi nomeado presidente da Conferencia, posto que manteve-se à frente até sua morte.
A CLCS era composta principalmente por comunidades negras ligadas a igrejas Batistas. Em uma visita à Índia em 1959, King pôde compreender melhor o que entendia por Satyagraha, o princípio de persuasão não violenta de Gandhi, que King estava determinado a empregar como o seu principal instrumento de protesto social. Posteriormente percebeu-se que a ação foi fundamental para impulsionar os direitos civis ao posto de principal assunto político tratado nos EUA a partir do começo da decada de 1960.
Foi justamente neste período que King organizou e liderou marchas a fim de conseguir o direito ao voto, o fim da segregação, o fim das discriminações no trabalho e outros direitos civis básicos. A maior parte destes direitos foi, mais tarde, agregada à lei estado-unidense com a aprovação da Lei de Direitos Civis (1964), e da Lei de Direitos Eleitorais (1965).
Apesar de utilizar princípios do protesto não-violento, ainda que como meio de provocar e irritar as autoridades racistas dos locais onde se davam os protestos - invariavelmente essas “autoridades” retaliavam de forma violenta.
A CLCS também participou dos protestos em Alabany (1961/62), que não tiveram sucesso devido a divisões no seio da comunidade negra e também pela reação prudente das autoridades locais; a seguir participou dos protestos em Birmingham (1963), e do protesto em St. Augustine (1964).
Em 14 de outubro de 1964, King se tornou a pessoa mais jovem a receber o Nobel da Paz, que lhe foi outorgado em reconhecimento à sua liderança na resistência não-violenta e pelo fim do preconceito racial nos Estados Unidos.
Em março de 1965, King e o CLCS tentaram organizar uma marcha desde Selma até a capital do Alabama, Montgomery. Duas delas foram frustradas. Na primeira, em 7 de marco, marcharam 525 pessoas por apenas 6 blocos; a intervenção violenta da polícia interrompeu a marcha. As imagens da violência foram transmitidas para todo o país, e o dia ganhou o apelido de Domingo Sangrento. King não participou desta marcha: encontrava-se em negociações com o presidente estado-unidense, e não deu sua aprovação para a marcha tão precoce.
A segunda, realizada no dia 9 de marco, foi interrompida por King nas proximidades da ponte Pettus, nos arredores de Selma, uma ação que parece ter sido negociada antecipadamente com líderes das cidades seguintes. Este ato tresloucado causou surpresa e indignação de muitos ativistas locais.
A marcha finalmente se completou na terceira tentativa (25 de marco de 1965), com a permissão e apoio do presidente Lyndon Jonhson. Foi durante esta marcha que Stokely Carmichael (futuro líder dos Panteras Negras) criou a expressão "Black Power".
Antes, em 1963, King foi um dos organizadores da marcha em Washington, que inicialmente deveria ser uma marcha de protesto, mas depois de discussões com o então presidente Jonh F. Kennedy, acabou se tornando quase que uma celebração das conquistas do movimento negro (e do governo) - o que irritou bastante ativistas mais radicais e menos ingênuos.
A partir de 1965, o líder negro passou a duvidar das intenções estadunidenses na Guerra do Vietna. Em fevereiro e novamente em abril de 1967, King fez sérias críticas ao papel que os EUA desempenhavam na guerra. Em 1968 King e a SCLC organizaram uma campanha por justiça sócio-econômica, contra a pobreza (a Campanha dos Pobres), que tinha por objetivo principal garantir ajuda para as comunidades mais pobres do país.
Martin Luther King era odiado por muitos segregacionistas do sul, o que culminou em seu assassinato no dia 4 de abril de 1968, momentos antes de uma marcha, num hotel da cidade de Memphis. James Earl Ray confessou o crime, mas anos depois repudiou sua confissão. A viúva de King, Coretta Scott King, junto com o restante da família do líder, venceu um processo civil contra Loyd Jowers, um homem que armou um escândalo ao dizer que lhe tinham oferecido 100 mil dólares pelo assassinato de King.
Em 1986 foi estabelecido um feriado nacional nos EUA para homenagear Martin Luther King, o chamado Dia de Martin Luther King - sempre na terceira segunda-feira do mês de janeiro, data próxima ao aniversário de King. A data é um dos três feriados nacionais dos Estados Unidos em comemoração a uma pessoa. Em 1993, pela primeira vez, o feriado foi cumprido em todos os estados do país.
Sites e referências bibliograficas
- http://www.thekingcenter.com/
- http://www.portalafro.com.br/
- http://www.lutherking.hpgvip.ig.com.br/
-BENNETT, Lerone. What manner of man; : a biography of Martin Luther King, Jr. New York : Pocket Books, 1968
- BRANCH, Taylor. Parting the waters : America in the King years. New York : Simon and Schuster, 1989
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
O Exterminador de MC´s
Antes sequer havia uma data. Passados alguns (muitos) anos, “ganhamos” um dia. Hoje, temos quase uma semana de eventos sendo realizados especialmente em homenagem ao Dia da Consciência Negra na cidade de São Paulo.Sei que alguns acreditam que a data esta perdendo seu real sentido e ganhando caráter comercial (assim como tradicionalmente acontece com a grande maioria das festividades em paises capitalistas), outros dizem que a comunidade esta mais preocupada com o feriado do que com a simbologia da data.
Pois bem, falem o que for, o fato é que a juventude negra paulistana gosta, comparece e se esbalda (às vezes em demasia) nas centenas de eventos que pipocam pelos quatro cantos da cidade durante o período.
E foi justamente em uma noite dessas, precisamente na noite de quarta-feira (19), véspera do Dia da Consciência Negra, que junto com uns amigos, decidimos que na contramão das festas realizadas em São Paulo, iríamos no show do Emicida, que ia rolar em Santo André (cidade onde também rolou o feriado).
Chegamos ao discreto, porém animado Bar Tupinikim, já eram quase 1h da manhã.
A princípio minha intenção era curtir o som e tomar umas com a rápa. Mas, como ia rolar Emicida, resolvi levar minha Canon e um bloquinho de anotações para uma eventual entrevista.
Noite vai, madrugada vem, uma cerveja aqui, um drink acolá, e a entrevista, mais em razão das minhas condições alcoólicas (que estavam começando a se manifestar), parecia que ia naufragar.
Mas, como se tratava de uma ótima oportunidade para o enriquecimento do blog, resolvi dar um breque. Sequei duas garrifinhas de água e fiquei de boas.
Logo depois que acabou o show, já por volta das 3h, procurei o Emicida. Bastante cumprimentando após a apresentação, Emicida me atendeu sem frescuras. Inteligente, bem articulado e focado na carreira, o MC mostrou durante a nossa conversa as virtudes de quem vem, já há algum tempo, abocanhando as principais rinhas de MC´s do eixo Rio-São Paulo. Ao mesmo tempo em que deixou transparecer em alguns momentos, com risadas e brincadeiras, o seu lado jovem, afinal, apesar das letras maduras e da barba no rosto, Emicida tem apenas 23 anos.
De feirante e empacotador de supermercado (Sabia disso?), a um dos mais hábeis rimadores do país, Emicida falou ao O Menelick - Segundo Ato. Confira como foi.
FICHA TECNICA
Nome – Leandro
Idade – 23 anos
Formação – Designer Gráfico
Quebrada – Tucuruvi/ ZN
Rimas – há 10 anos
Início
Nunca me imaginei vivendo da música. Isso para mim é uma parada muito loca. Sempre pensei o rap como um hobby. Gostava muito de fazer letras e tal, mas nunca as mostrava pra ninguém. Mas chega uma hora que você fica meio sufocado. Você precisa que as pessoas vejam seu trampo, é até normal. Daí fui conhecendo pessoas, participando de rinhas, campeonatos e minha carreira começou a desenrolar.
Fora do Rap
Sou Designer Gráfico, mas já fui feirante, pintor, cobrador de lotação, artesão, catador de latinha, vendedor de hot dog, empacotador mercado, assistente de som e ilustrador. Antes da música minha idéia era trampar com desenho. Cheguei a participar de exposições e a ganhar alguns prêmios.
Hutúz
Optei por não participar este ano. Porque você acaba indo ali, indo aqui e fica sem tempo pra música e pros shows. Mas acho que é uma premiação importante. Precisamos de algo assim no Rap. Este ano estou torcendo pro Kamau, que tá concorrendo em várias categorias. Ano que vem espero estar lá também.
1º Disco
O disco vai chocar as pessoas. Digo chocar porque vai surpreender, as pessoas não estão esperando pelo que vão ver. Ele está sendo produzido pelo Felipe Vassão. O disco vai ser lançado em 2009, mas ainda não tem uma data definida. Antes disso, vou soltar uma Mix Tape no começo do ano que vem com as músicas que não vão estar no disco.
Levada
Estou muito próximo do samba e isso vai refletir no meu disco. Tenho experimentado várias coisas. Quero fazer um disco com música brasileira de verdade.
Participações no álbum
Acho que serão duas participações. Uma de um mano do Pentágono, o Rael da Rima. Sou fã dele, ele é muito bom. A outra participação eu prefiro não falar porque ainda não tem nada definido.
Rap x $$$
Hoje consigo sobreviver do meu trampo. Minhas rimas me possibilitam que eu pague minhas contas e viva pra música.
Rap no Brasil
O Rap ainda não é visto realmente como um segmento musical serio pela maior parte da sociedade. Nosso movimento segue muito estereotizado, as pessoas não sabem o que é. Ainda pensam que é o mundo dos manos e tal. Mas como a gente ama essa parada, temos que arcar com as conseqüências dela também. Mas tamo ai pra mudar isso.
Internet
A Internet expandiu as informações e a possibilidade de você atingir diferentes públicos, mas ao mesmo tempo tirou a galera da rua. E o que manda é a rua. Utilizo a Internet mais para as pessoas saberem que estou vivo e produzindo. A Rua é Nois, este é o lema. Não podemos perder esse lance de acreditar na rua, porque se não for pela rua, não vai ser...A internet é apenas uma ferramenta. Fazer shows e estar no role continuam sendo fundamentais.
A Internet tem parte na culpa por um lance que vem acontecendo com muitos artistas. Na minha opinião, primeiro o artista tem que fazer shows, se apresentar aqui, ali, mostrar a sua cara, e depois lançar o disco. Mas os músicos deixaram de fazer isso. Hoje, primeiro eles lançam um, disco e depois vão pra rua fazer shows. Ai não rola!
Inspirações
A vida e o cotidiano é a maior escola que existe. São minhas grandes inspirações.
Improviso
Acho que o improviso esta no brasileiro. O povo brasileiro tem disso. É como aquele cara que vem de longe, não tem onde morar, não tem emprego e pega umas madeirites e faz disso a sua casa. O improviso é isso, se virar conforme a necessidade.
Nova geração
Tem gente muito boa. Mas esperava muito mais da minha geração. Tanto musicalmente como, principalmente, no que diz respeito à atitude. A gente que tá no dia-a-dia vê quem vive a parada mesmo.
EMICIDA
Fui eu mesmo que inventei, significa Enquanto Minha Imaginação Compor Insanidades Domino a Arte. Gosto deste nome, ele é forte, imponente e tal. Parece meio que o exterminador de Mc´s! (rs)
Mais informações
www.myspace.com/emicida
emicida@gmail.com
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Um Morto Muito Loco

Nos conhecemos de outros “bangs” e, por isso (também), o que era para ser apenas uma entrevista, acabou se transformando em um lance mais informal e a conversa fluiu.
O lance aconteceu no domingo (16). Liguei pro Urso por volta das 14h, ele tinha deixado o celular em casa (e a namorada também, afinal, foi ela quem me falou onde ele estava) para dar continuidade a mais uma etapa da operação “A City é Nossa” que ele e o Chinês (8 ou 80) estão fazendo nos muros de São Caetano.
Trombei os dois pintando (sem autorização) na avenida Robert Kennedy (movimentada via da cidade). Já era o terceiro dia de trampo, cheguei na hora que os primeiros traços mais artesanais da dupla estavam começando a ganhar forma. Segue o papo....
Ficha Técnica
Nome – Fabrício
Idade – 21 anos
Formação – Estudante de Publicidade e Propaganda
Quebrada – São Caetano do Sul/ SP
Grafite – Desde 2005
Urso?
Meu primeiro contato com a arte de rua foi colando lambe-lambes. Não tinha nada de Urso até então. Depois comecei grafitando meu próprio nome. Passou um tempinho e resolvi fazer um desenho que era uma espécie de embrulho. Na verdade eram faixas formando tipo um laço. Um dia fiz um urso ao lado deste embrulho e curti. Até que cheguei neste Urso que faço hoje.
Significado
Desde o começo procurei fazer algo que ninguém entendesse mesmo, que causasse uma incógnita. Se ele estivesse vivo não teria graça! O Urso Morto gera uma ausência de sentido, não tem significado. O ser humano sempre vai procurar um sentido para tudo. Cada um faz a sua análise quanto ao meu desenho. Acho que isso deixa meu trampo mais interessante.
Rotina
Sempre rola um pouco disso, de rotina, é normal, faço basicamente sempre o mesmo desenho. Mas de um tempo pra cá resolvi incrementar meu trampo com alguns elementos. Recriei a trajetória da morte do Urso. Com ele sendo flechado, atacado por corvos. Me preocupo bastante com o layout do desenho.
Urso parte II
Estou desenvolvendo uma parada que dialoga com o cotidiano das pessoas. Comesses novos desenhos vou tentar me aproximar mais da sociedade. Penso em retratar algo que tenha provocado a sociedade durante aquela semana, daí vou descrever esta situação, a minha maneira, com todos os personagens encapuzados com a cabeça do Urso. Como se o cara matasse o Urso, pegasse a sua cabeça e colocasse por cima. Talvez também use o stencil como recurso nesse projeto.
Objetivo
Não quero salvar o mundo, só quero passar minha mensagem. Mesmo que seja uma mensagem idiota, se o cara parar para ver, já fico feliz. Só quero me divertir, e me divertir com a reação das pessoas.
Satisfação
Fico satisfeito em fazer um grafite que consegue chamar a atenção de pessoas comuns, que não são grafiteiros nem pixadores. E isso não é fácil, porque geralmente as pessoas ignoram este tipo de arte por aqui.
Admiração
Admiro os caras do Seis e Meio, a forma como o Banksy (artista de rua que usa o graffiti como forma de expressão nas ruas de Londres) se comunica. Os Gêmeos, da emoção e do sentimento que eles colocam nos trampos. Gosto muito do Obey também. Tenho esses caras como inspiração, mas admiro muitos outros.
Escalada
Acho loko escalar pra desenhar. Curto subir em um outdoor e por a minha propaganda lá. É a mesma finalidade da propaganda paga, mas para divulgar a nossa marca.
Grafite no ABC
No ABC o movimento é mais fraco do que em São Paulo. Já foi mais forte, hoje em dia ta meio parado. E não precisa de muito. Uma única pessoa já faz uma puta diferença. Você percebe isso quando alguém pára de fazer o role. Tipo o Bigho, por exemplo, fazia vários e parou. Faz falta. A gente percebe isso nas ruas.
Grafite X Pixação
O lance dos atropelos que rolou ai não é representativo. Foi um grupo. Algo pessoal. Não tenho nada contra a pixação, ate porque já pixei e todos da minha Crew pixam
A Crew chama-se Turma Sem Controle (TSC), existe há dez anos e é formada pelo Mundo (Peraltas – Durex), Zopes (Detenção – Peter), Aline (TBG), Bigho (Farsa) e Nuke (Farsa).
Zica
Já rodei na linha do trem. Fui preso e os caraio, foi foda.
Repressão
Eles pintam nossos grafites, apagam nossos fotologs, mas a gente não vai parar!
Grafite X Sociedade
Ainda somos muito excluídos. Ao mesmo tempo que tem uns que falam que somos o futuro do pais, outros falam que somos uns vândalos, uns lixos.
Muros
Tem muita gente que acha que o legal é fazer um Grafite em um lugar arriscado. Eu procuro fazer onde passa mais gente, onde as pessoas poderão ver.
Grafite X $$$
Sempre vou tentar ganhar dinheiro com o grafite. E algo que levo muito a serio, porque tem que ser levado a serio. Tem gente que morre por isso.
...$$$$
Tem um investimento alto sim. Mesmo tendo economizar, comprando o jet mais barato. Não tem jeito...
Role
Trampo como freelancer. Só deixo de pintar pela minha mina. Se for pra ficar com ela, fora isso nada me impede, to sempre pronto pra fazer um role.
São Paulo
Gosto de pintar em São Paulo, que é o lugar onde estão as pessoas que quero que vejam meu trampo. Mas pintar a sua quebrada é fundamental. Se não vem os cara e alastra.
Divulgação
Ainda quero trabalhar o site e o flickr pra lançar tudo junto. Logo mais vai acontecer.
www.flickr.com/ursomorto
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
“A independência é uma escolha de quem não quer esperar. Se você acredita, apóie. Faça mais do que elogiar se quer continuidade”, Kamau.

Nome?
Marcus Vinicius Andrade e Silva
Porque Kamau?
Foi tirado de um livro de nomes africanos. Significa Guerreiro Silencioso em Swahili. Acho que tem a ver com o meu jeito de tentar fazer as coisas, de trazer mudança.
Idade?
32
Onde nasceu?
São Paulo
Como o Rap surgiu na sua vida?
O rap apareceu do nada quando eu tinha 12 anos, pelo rádio. Nessa época comecei a andar de skate também e conheci o Robson que morava perto de casa. O irmão dele é dj até hj e eu conheci muito do rap na casa deles. E muito também nos vídeos de skate. Comecei a rimar com 21 anos, depois de uma sugestão do Kléber, irmão do Robson, que me perguntou porque eu não rimava já que tinha boas idéias e cantava as rimas dos gringos que eu ouvia. O Robson se tornou Ajamu, e foi meu primeiro DJ quando, junto com Sagat, formamos o Conseqüência, em 97.
O que seria, ou quem seria, o Kamau sem o Rap?
Não faço idéia. Talvez tivesse me empenhado um pouco mais no skate ou seria um professor de matemática.
Como surgiu a idéia das parcerias do seu mais recente álbum "Non Ducor Duco"?
Proximidade, afinidade e qualidade. E o que cada um poderia acrescentar à música para a qual fora convidado.
Fora do universo musical, o que gosta de fazer?
Andar de skate e ouvir música. Não faço muito mais que isso.
Como avalia, profissionalmente, o ano de 2008 para você?
Um recomeço. Um ponto de partida pra algum lugar onde ainda não cheguei. Depois do lançamento do disco fiquei no limbo dos elogios ao trabalho mas sem trampo de verdade. Agora estão começando a aparecer os shows e convites, mas poucos querem trabalhar com seriedade.
Hutuz?
Já fui indicado outras 3 vezes: Com o Consequência em 2002 (melhor Demo), com o Simples em 2005 (melhor Demo) e 2006 (melhor dj (Will) e revelação).
Quando ganhamos com o Consequência não mudou nada em relação à carreira. Mas os tempos são outros e cabe também a mim trabalhar o peso dessas indicações a meu favor. É a única premiação nacional que temos e reúne formadores de opinião dos mais diversos pontos do país. Então é importante de algum modo.
Algumas pessoas que vivem o Rap, dizem que o Hutuz é uma premiação falída e comprada. Tem algo a falar sobre este tipo de declaração?
Acho que muitos dizem sem saber. Ganhei uma vez e não foi por filiação ou compra. Não sei se funciona assim, mas tudo que funciona tem os que defendem e os que falam mal. Então não seria diferente com o Hutuz.
Planos para 2009?
Colocar o Plano (Audio) em prática. Tenho alguns projetos que serão divulgados à medida que forem saindo da prancheta.
Como as pessoas devem fazer para adquirir o seu CD?
Em São Paulo nas lojas: Pavilhão, Charms, Canal 24, Porte Ilegal, Sigilo e Zeitgeist (Galeria do Rock). E nas lojas: Colex, Gringos, Trucks, Flórida, Mágica do Hip Hop, Pegada Preta e Cash Beat (na Galeria Presidente)
Para o Brasil (por correio) : http://www.gringoscds.com.br/ e http://www.centralhiphop.com.br/
Mais informação pelo e-mail planoaudio@gmail.com pra saber se há um revendedor na sua cidade.
Considerações finais?
A independência é uma escolha de quem não quer esperar. Se você acredita, apóie. Faça mais do que elogiar se quer continuidade. Valeu pelo espaço. Non Ducor Duco nas ruas.
Contato
www.myspace.com/kamau76
Barack, o Negro Obama

O fato mais comentado da semana foi à eleição do democrata Barack Obama como o novo presidente dos Estados Unidos da América.
Quem um dia poderia imaginar que a maior potência do mundo viria a ser governada por um negro. Para um país que nos anos 50 (ou seja, há pouco tempo atrás) ainda era marcado pela segregação, e que obrigava, por exemplo, negros a cederem aos brancos, acentos nos ônibus; tamanha reviravolta de valores, em um período tão curto, foi sensacional e surpreendente.
Martin Luther King, Malcom – X, Nelson Mandela, Rosa Parks, Zumbi, Os Panteras Negras, você, eu, em fim, todos aqueles que defendem (ou defenderam) a tese que diz que todos são iguais, estão orgulhosos por tal feito.
Porem, muito mais do que a cor da pele, o que conduziu Obama a posição de presidente dos E.U.A, entre outros motivos, foi a sua mensagem progressista, ele representa a vitória de demandas sociais, a vitória de ações afirmativas, do direito das mulheres, dos ecologistas e de noutras minorias.
O anúncio da vitória de Obama foi emocionante. A comoção que tomou as ruas dos Estados Unidos, e que refletiu em centenas de outros lugares ao redor do mundo, e que uniu negros, brancos, imigrantes, ricos e pobres entrou para a história política mundial, como o dia que a esperança por um mundo melhor foi reacesa. Que ela não se apague, e que Obama não seja apenas um “jovem, bonito e bronzeado”, conforme infeliz afirmação do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi.
Yes, We Can!
4P

O primeiro deles, a vitória do piloto inglês Lewis Hamilton, primeiro competidor da raça negra a disputar a disputar um campeonato de Fórmula 1, e que no domingo (02), tornou-se também o mais jovem piloto a conquistar o título da nobre competição, aos 23 anos. Um misto de talento, competência e sorte, conduziram o precoce, e agora atual campeão mundial, ao posto de número um da competição mais estrelada do automobilismo mundial.
Existem milhares de outros negros que são profissionais exemplares e excelentes em seus ofícios, isso não há duvida, porem, pela visibilidade ($$$) que a F-1 tem, seus competidores acabam por tornar-se referencia para muitos jovens, e o desempenho de Hamilton passou a ser uma para os jovens negros (espero).
Não vejo ele como um líder das causas que afligem o povo negro, tão pouco o ouvi defender tais interesses. Ele e (apenas) um piloto, que nasceu, cresceu e vive, em universo predominantemente branco (o automobilismo) e só agora esta tendo a oportunidade de dimensionar a importância da sua posição e da sua conquista. Contudo, o seu sucesso serve de estimulo para outros da sua cor.
Em poucas palavras, Hamilton mostrou que, com muito trabalho (pois assim se constrói qualquer vencedor) e oportunidades iguais, o negro pode alcançar as estrelas, e ir muito mais longe do que imagina ou do que foi pré-estabelecido pela “sociedade”.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Tem um aí?!
+de+ROLEZINHO+JUL+079.jpg)
Nome?
William Batista da Silva
Idade?
25 anos
Por que Liu Mr?
Liu é um apelido que recebi da minha avo, ainda pequeno. MR era o nome do meu antigo grupo, quando eu comecei a cantar Rap mesmo. O grupo era formado pelo meu irmão e eu. A sigla significa Motivo Real
Quanto tempo de carreira?
10 anos
Qual a sua formação?
Fiz o curso básico de Teatro na Fundação das Artes em São Caetano, queria ter continuado e acho que vou voltar depois. No momento faço faculdade de jornalismo.
Por que Vato Loco?
Vato é uma gíria mexicana que significa parceiro. E loco é de louco mesmo!rs Ou seja, irmão, parceiro de idéias loucas.
Quantas musicas tem o álbum?
12
Quem participa do CD?
Rappin Hood, Lakers, Di Menor (do Alvos da Lei), Gerson (do Mano Banto, do Maranhão), Fuá, Denise (do Filosofia Reggae), Coral The Family e Kaique MC.
Quais as inspirações para compor?
A inspiração vem do dia-a-dia, da experiência cotidiana, dos relacionamentos com as pessoas.
Local de?
São Caetano do Sul
Quais as principais dificuldades que enfrentou para lançar o CD?
Demorei um ano para gravar o CD. Foi gravado em estúdio bacana, no Ipiranga. Foi em uma época muito importante para mim, eu tinha 21 anos. Era praticamente um muleque ainda, mas achava que não. Foi uma experiência loca a gravação do disco. Só boas lembranças. Terminei de gravá-lo com 22 anos.
Mas a treta veio depois, porque o CD tava pronto e não ia pra rua. Mexe muito com a cabeça da gente esse lance, até pensei que o trampo de um ano tinha sido em vão.
Mas no final das contas até que foi bom, amadureci bastante neste tempo. Sem contar que se criou uma expectativa por parte de algumas pessoas e grupos que agora querem ouvir o meu som. No período em que o CD ficou pronto até hoje, muita coisa rolou, muitos shows, aparições e isso fez com que pessoas quisessem ouvir a minha musica.
Espera ganhar dinheiro com o Rap?
Não canto rap pensando em dinheiro. Se um dia vier acredito que será por merecimento. Mas não é o que eu almejo. E dia 8 estão todos convidados para o pré-lançamento do CD no Hole Club!
Informações:
www.myspace.com/liumr
Hole Club abriga noite de pré-lançamentos
Demorou, ah como demorou. Assim como acontece freqüentemente (ou melhor, categoricamente) com artistas da cena musical independente que almejam lançar o seu primeiro álbum; mas finalmente o que parecia ser um sonho distante está próximo de se tornar realidade para o rapper Liu Mr.Neste sábado (08), após 10 anos de shows, participações especiais e muita expectativa, o MC sobe ao palco do Hole Club para a festa de pré-lançamento do disco "Vato Loco".
Na mesma noite, e no mesmo bat local, acontece também o pré-lançamento do CD de Johnny MC. Na festa, os dois protagonistas do espetáculo estarão acompanhados dos Dj’s Marco, Erick Jay e Rappin Hood (Tocando o Báu do Hood).
O Hole Club fica na rua Augusta, 2203, nos Jardins. Informações: 3086-1083.
Sem parto!

O encontrei, ou melhor, o procurei, na noite de sexta-feira (30), durante um workshop sobre Produção Musical, ministrado por ele próprio, e que estava rolando na Coletivo Galeria, em Pinheiros.
Durante nossa breve conversa, Parteum se mostrou (e demonstrou durante o workshop) um cara bem amadurecido musicalmente. Exímio conhecedor, e estudioso, da produção musical na era digital.
Ainda na Galeria, ao som do Dj Suissac, Parteum não impôs barreiras, rampas ou corrimãos para que marcássemos uma entrevista (a primeira de O Melenick – 2º Ato).
E a estréia não poderia ter sido em melhor estilo!
Nome?
Fábio Luiz
Porque Parteum?
Se me lembro bem, minha primeira rima dizia algo como: Não vejo problema algum, Parte 1, no microfone, na fome, venho pra inovar... Depois descobri que Parteum siginifica parto em latim, e só troquei o numeral pelo extenso e juntei as palavras. Fazer música é sempre parto.
Qual a importância do Skate na sua formação como homem e musico?
Se não fosse o skate, eu seria o cara mais infeliz do planeta. Como você explica para uma garoto negro de periferia que o mundo não é tão grande assim, senão o colocando em pistas com seres de diferentes classes sociais e crenças. As viagens que fiz pelo Brasil e afora me fazem perceber o meio de uma outra maneira. Meus melhores amigos andam de skate até hoje. Na música as amizades se dão de outra forma, os interesses são outros... Na real, falar de amizade e interesse na mesma sentença já me parece torto.
O Skate me ensinou a buscar meios para viver do que acredito, me expressar de verdade. A música é um desdobramento da experiência acumulada no Skate.
Mas e ai, continua andando?
Sim, estava ao telefone agora mesmo com o Fabio (Chupeta). Quando passei por um processo de imersão em estúdio, em 2002, 2003, ele nunca me deixou parar de andar. Já chegou a aparecer com um skate montado na porta de casa e falar: Tem estúdio hoje? Dane-se! Hoje você vai andar de skate.
Fale sobre a sua nova mixtape "Magus Operandi"? Por que uma mixtape e não um CD?
Na verdade, essa é a minha sexta mixtape. Eu sempre dou um jeito de colocar meus trampos na rua, não penso muito na sazonalidade do mercado e tudo mais. Um artista que vende 4.500 peças de um disco não importa muito para o mercado. Tive toda a ajuda da Trama no lançamento do meu primeiro álbum solo, Raciocínio Quebrado, mas já sabia que existia uma linha entre o investimento proposto e os números. Números não mentem.
Costumo dizer que as mixtapes são as portas do estúdio entreabertas, já o álbum tem a finalidade de contar a história de um período na vida do artista, fechar um ciclo até. Eu acredito que os grandes álbuns sejam criados a partir dessa premissa.
Penso que essa é a terceira mixtape, das seis que já lancei, com características de álbum. Parte da experimentação com instrumentos acústicos, presente no meu próximo álbum, já aparecem na mixtape. Magus Operandi, logo mais nas ruas!
Assim como nos demais ramos de atividade profissional, você concorda que o Rap também tem as suas panelas? Com quem você anda, quem são seus parceiros (músicos ou não) mais chegados?
Eu não acredito em panelas, na real ando com as pessoas que me respeitam, e tem uma visão parecida com a minha. Já andei pelos mais diversos círculos fazendo música. Nunca imaginaria escrever uma canção (My Rules) para o Ed Motta, por exemplo, ou remixar Tom Zé. Meus parceiros mais constantes são Secreto e Suissac, sem dúvida. Falo bastante com Kamau, Espião, Rodrigo (Mamelo), mas faço pouca música com eles. Produzi duas faixas no disco do Kamau, uma para o Mamelo recentemente e tem uma produção minha no disco novo do Espião. Falo de música com o Maurício Takara quando nos encontramos... Acho doido o trampo do Guizado. Gosto do flow e das letras do Rincon Sapiência, gosto da Luana rimando também, da Stephany do Simples. Essa pergunta é injusta, ao menos dez outros nomes vão ficar de fora.
Como é a sua relação com o seu irmão (Rappin Hood), vocês se falam com freqüência? E os trampos, produzem coisas juntos?
A melhor possível. Acho que até colaboramos pouco um com o outro. Acabo de remixar uma faixa da Quadrilha, um grupo formado por ícones do Hip-Hop Brasileiro: Rappin Hood, KL Jay, Hébano (Potencial 3) e Xis. Tem essa parada de irmão mais novo e mais velho, mas sei que ele vibra com cada acerto meu na loucura do mundo da música. Afinal de contas, era com ele que ouvia Slick Rick, Public Enemy e De La Soul em 87, 88.
Qual a sua formação musical. Onde estudou?
Toquei em fanfarras durante algum tempo, isso quando eu tinha 10, 11 anos. Comecei a disputar campeonatos de skate e desencanei da música. Sempre gostei de bateria, passava horas imitando os ritmos que ouvia nos sons do The Police, no Funk de George Clinton (Parliament/Funkadelic) em casa. Ouvia Tião Carreiro e Pardinho com meu pai, Standards da Motown com minha mãe... Aida de Verdi nos ensaios da fanfarra. Nunca passei fome de música nessa vida.
Só fui me interessar pela música, além das aulas de divisão rítmica, quando passei a levar minha irmã às aulas de piano. Isso mudou a maneira de perceber as melodias e harmonias. Até tínhamos um piano em casa, um pouco antes do piano chegar, comprei um teclado para minha irmã quando recebi meu primeiro 13º.
Em 1998 conheci o Espião (Rua de Baixo), aprendi a programar timbres nos teclados. Comprei uma Groovebox 505, enchi o saco do Beto Villares (Salve, Mestre!) e fui aprendendo essa parada de gravação e criação. Preciso falar do Vander Carneiro do Atelier Studios, um dos dos melhores engenheiros de som do Brasil. Tenho bons amigos e bons professores nesse jogo maluco. Faço aulas de piano com a Joana Brito, mas sei que não sou um bom aluno. Desculpa, Joana!!!
Você acha que as pessoas que fazem rap hoje no Brasil (músicos e produtores) já aprenderam a enxergar a musica como negócio? Ou ainda tem muita gente ganhando dinheiro em cima dos rappers e produtores no nosso país?
Não, mas estamos todos aprendendo. O modelo de negócio do mercado fonográfico está mudando. Não diria reinvenção, mas tudo está meio esquisito. Hoje, conto muito mais com patrocinadores de roupa e tênis para botar meus projetos na rua. Meu deal com a gravadora é bem mais parecido com sociedade mesmo, se bem que na Trama, é sentar com o João, ser sincero e pensar nas possibilidades. Nem sei como seria minha carreira se tivesse assinado um licenciamento, ou mesmo um contrato de cessão de fonogramas, com uma major.
Notadamente você e um cara que conhece muito bem o assunto Produção Musical. Como adquiriu, e continua adquirindo, conhecimento. Onde busca informações para produzir seus trabalhos?
A internet é um vasto oceano, não é profundo, mas é um oceano. A partir das informações que leio em sites de tecnologia, propriedade intelectual, blogs de advogados da área autoral, músicos, arranjadores e compositores, eu vou revendo o que aprendi fazendo a correria com o grupo. Minha relação com a Trama me ajuda até hoje.
Já para produzir meus sons, tento não prestar atenção no que é atual ou antigo, produzo o que minha cabeça manda. É lógico que tudo o que faço tem um forte elo com o que cresci ouvindo: Nas, A Tribe Called Quest, De La Soul, Pharcyde, EPMD, Os Metralhas, Possemente Zulú... mas minha própria loucura, e o ritmo com que lido com meus afazeres, livros, filmes, formam as composições.
-A quantas anda a sua carreira, como divide os trampos de produção, os ensaios e apresentações do Mzuri Sana e a carreira solo? Qual a sua prioridade no momento?
Passei 7 meses desse ano sem me apresentar. Na real, acho que fiz 2 apresentações da mixtape do Kléber e só. Agora retomei os shows pra divulgar a mixtape e o DVD do Mzuri que, com a permissão divina, será lançado em breve. Gostaria de ter uma prioridade em minha carreira, mas só primo por melhores timbres, acordes... o Mzuri Sana fez dez anos agora em outubro. Que venham os próximos dez.
Quem integra e o que significa Mzuri Sana?
Mzuri Sana significa muito bom em Swahili. Se alguém te pergunta Habari yako? Você responde Mzuri Sana. Tipo: E aí, tudo bem? Tudo bom, tudo tranquilo. Conversando com meu avô materno, pegando informações que um tio falecido coletava, cheguei ao nome da fazenda onde meus antepassados trabalharam na região de Dois Córregos. É quase certo que eles falavam algum dialeto derivado do Kiswahili ao chegar aqui. Devem ter vindo de algum lugar entre Kenya e Mozambique. Mzuri Sana = Parteum + Secreto + Suissac.
Planos para 2009?
Lançar meu segundo álbum, começar a produção do terceiro álbum do Mzuri, pegar um outro longa pra fazer a trilha... Eu tenho um monte de planos, a execução é lenta, mas idéia é o que não falta. Me divertir mais, trabalhar um pouco menos.
Como as pessoas podem fazer para adquirir a sua mixtape?
A grande maioria baixa da internet mesmo, é claro que eu agradeço quem as adquire nas lojas do centro de SP. Algumas lojas até despacham para outros estados e exterior via correio. Mandem emails para management@mzurisana.com
e indicaremos uma loja ou distribuidor, sem problema.
Considerações finais. Gostaria de deixar um recado ou falar algo que não foi perguntado?
Obrigado pela consideração, Nabor. Vida longa ao blog! Magus Operandi logo mais nas ruas. Mzuri Sana ao vivo na Praça da Sé no dia 20, e que nossos sucessos não sejam a perdição de outros. Axé!
Informações:
Parteum
http://www.parteum.com/
http://www.mzurisana.com/
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Cada um no seu quadrado
X
Esta semana começou turbulenta para os mais "ácidos" freqüentadores dos muros, fachadas e beraus da cidade de São Paulo. Digamos que não chega a ser uma treta de fato (imagino que não seja para tanto), mas um mal estar - talvez desnecessário, se instalou entre grafiteiros e pixadores neste final de semana.Um grupo de pixadores destruiu (no rolinho sem dó) três importantes painéis de grafite da cidade. O painel em homenagem a Imigração Japonesa (no buraco da av. Paulista), um Beco da Vila Madalena e um painel do Sesc, na rua 24 de Maio, no centro.
Foram escritas por cima dos desenhos frases como: “Demasiado Humano” e “Além do bem e do mal”, referências da obra do filósofo alemão Friedrich Nietzsche.
Em entrevista concedida ao jornal Folha de S. Paulo, e publicada nesta terça-feira (26), um dos elementos que participou do referido ato (e de nome não identificado em tal reportagem) disse que o grupo quis “protestar contra o caráter comercial e capitalista que tomou conta do grafite”.
Particularmente não concordei com a atitude, diferentemente da “intervenção a fórceps” que aconteceu no andar vazio da Bienal, no domingo. Quem sabe da caminhada? da base? E do role de cada grafiteiro pra atropelar o trampo do cara?
A atitude rompeu com um dos mais antigos códigos de respeito que existe entre ambos “artistas”, o de não atropelar o trampo um do outro e vice-versa.
Concordo com o argumento do grafiteiro Nunca: “Coisa de pessoa ignorante que acaba privando a população pobre do acesso a arte de rua, que está lá, exposta gratuitamente”.
Já fui pixador (e gostava hein. Te falar que até hoje, as vezes aparece uma lata do nada ai...bom, deixa no gelo), atualmente grafito (esporadicamente, e gosto muito também), não sei se os caras que fizeram os pixos representam o que pensa a maioria da, digamos, categoria, mas acho que o respeito tem que prevalecer. Sem mais delongas!
ps. Desculpa começar o blog com postagens deste tipo, quero dizer com um texto ½ que na primeira pessoa e tal - já que a principio este espaço foi criado com outros propósitos. Mas acontece que foi um fato importante, ocorrido em locais pra lá de tradicionais por suas paredes coloridas, e que deve ser discutido.
Nabor
terça-feira, 28 de outubro de 2008
O Menelick (imprensanegra)

Assim em 1915, começa a circular em São Paulo, uma das mais importantes manifestações da trajetória do negro brasileiro na luta pela cidadania, a chamada imprensa negra paulista, cujo primeiro jornal intitula-se O Menelick.
A publicação conseguiu grande prestígio na comunidade negra, difundindo aquilo que os seus redatores achavam mais interessantes para a vida social e cultural dos negros.
Após o primeiro, outros se sucederam na seguinte ordem: A rua e O Xauter, 1916; O Alfinete, 1918; O Bandeirante, 1919; A Liberdade, 1919; A Sentinela, 1920; O Kosmos, 1922; O Getulino, 1923; O Clarim da Alvorada e Elite, 1924; Auriverde, O Patrocínio e O Progresso, 1928; Chibata, 1932; A Evolução e A Voz da Raça, 1933; O Clarim, O Estímulo, A Raça e Tribuna Negra, 1935; A Alvorada, 1936; Senzala, 1946; Mundo Novo, 1950; O Novo Horizonte, 1954; Notícias de Ébano, 1957; O Mutirão, 1958; Hífen e Niger, 1960; Nosso Jornal, 1961; e Correio d’Ébano, 1963.
De maneira geral, o jornalismo praticado por esses jornais era altamente segmentado, com informações dirigidas a um público altamente específico.
Eles não refletiam nas suas páginas, por exemplo, os grandes acontecimentos nacionais. Nada sabemos, pela sua leitura, da Coluna Prestes, da revolução de 1930, do movimento de 1932 em São Paulo, da revolta comunista de 1935 e de outros acontecimentos relevantes nesse período. Há, mesmo, uma certa cautela tática, pois neles também não se encontram notícias ou comentários sobre o movimento sindical, as lutas operárias, greves e a participação dos negros nesses eventos. Também não se encontram críticas ao governo.
O Menelick – 2º Ato, por sua vez, não tem a mesma pretensão do O Manelick, apesar de também contrapor as barreiras, porem, de uma imprensa que omite da sociedade manifestações culturais autenticas e consolidadas no universo urbano (e muitos vezes rural) da cidade de São Paulo.
O Menelick – 2º Ato pretende ser um canal de divulgação de idéias e serviços referentes a arte contemporânea, seja ela negra, branca, amarela ou cafusa.
Nabor
Fonte: História do Negro Brasileiro / Clóvis Moura - São Paulo: Editora Ática S.A., 1992.





































































